12 de julho de 2015

História do Cinema de Animação – O Laboratório de experimentações com as Sinfonias Ingênuas (15ª Parte)

Nas ultimas postagens conhecemos Oswald – o Coelho Sortudo, o primeiro personagem de sucesso de Walt Disney; e a Era de Ouro do cinema de Animação. Foi neste período que o cinema de animação recebeu o devido reconhecimento e se estabeleceu como arte cinematográfica, graças a todo desenvolvimento técnico e artístico. Foi com a série “Sinfonias Ingênuas” (Silly Simphonies) que o estúdio Disney experimentou diversas tecnologias e técnicas animadas que enriqueceram esse momento do cinema de animação. Na postagem dessa semana, vamos conhecer essa série, que foi o laboratório de experimentações de Disney.
The skeleton dance” (1929)
Sinfonia Ingênuas possui 75 curtas de animação, produzidos entre 1929 e 1939. A série utilizava-se da trilha sonora e da música para explorar o movimento e o ritmo, principalmente para auxiliar no desenvolvimento da narrativa. A composição sonora era, de fato, um elemento da própria história animada. A falta de diálogos e a musicalidade dos curtas também eram uma maneira de criar um apelo internacional, o que originou tamanho sucesso pelo mundo. Além disso, trouxeram para a animação grandes avanços tecnológicos, como: a sincronização do som, música, diálogos e colorização, o que o diferenciou dos demais estúdios. O primeiro curta desta série “The skeleton dance” (1929) mostra um espetáculo audiovisual de caveiras que se utilizam de seus próprios ossos para compor a sinfonia animada e desenvolver toda a ação.
“Flowers and Trees” (1932)
No curta “Flowers and Trees” (1932), Disney tem a proeza de lançar o primeiro curta animado colorido, em parceria com a empresa de coloração cinematográfica Technicolor. Ele exibe personagens de uma floresta que dançam ao som de Mendelssohn e Schubert, e se deparam com a ameaça de um fogaréu. Foi o primeiro desenho animado a ganhar um Oscar na categoria melhor curta metragem. Alguns teóricos descrevem que os filmes coloridos iniciam uma nova era, a qual levava aos espectadores novas sensações multicoloridas da fantasia e que ajudava a combater a cor cinza, tão presente e vivenciada pela Grande Depressão.
Three Little Pigs” (1933)
Em 1933, os artistas de Disney acharam na invenção do storyboard o recurso mais adequado para ordenar e estruturar os filmes animados. O artifício, que consiste numa cadeia de desenhos em sequência que ilustram a ação-chave, foi utilizado no filme “Three Little Pigs” (1933) da série Sinfonias Ingênuas. O storyboard ajuda a visualizar a estrutura do filme, além de orientar sobre a sequência dos planos, os ângulos, o ritmo, a lógica do filme, as expressões e atitudes dos personagens antes da construção da animação. Foi também durante a produção e elaboração desse curta que se observou a necessidade de um departamento que trabalhasse com toda a concepção gráfica, seja ela dos personagens, dos cenários, dos figurinos, da iluminação dos ambientes ou da demarcação das cores, antes mesmo do processo de produção. O setor de layout e o storyboard tornaram-se elementos fundamentais, com tão grande importância e utilidade que acabaram se generalizando para todo o cinema e para a publicidade sendo amplamente utilizados até hoje, não só para a animação como para os filmes de ação ao vivo.
Disney observando o storyboard
Além de contribuir para a produção, o curta animado “Three Little Pigs”, enraizou a tradição de Disney de envolver os espectadores com a personalidade de seus personagens. Nele são retratados personagens com semelhanças no traço do desenho, mas que se diferenciavam na estilização do movimento e em suas personalidades. Foi na transformação de um simples conto infantil, que Disney conseguiu, através dos princípios da animação, fazer com que a plateia sentisse todas as emoções levadas pelo personagem.
“The Old Mill” (1937)
O estúdio Disney também inovou tecnicamente com a invenção da câmera de múltiplos planos, desenvolvida especialmente para o cinema de animação, que contribuiu para a evolução da fotografia. O equipamento tinha o intuito de conseguir um zoom realista através do movimento da câmera sem prejudicar a ilusão da profundidade e os efeitos de iluminação dos cenários e personagens. O primeiro curta-metragem lançado inaugurando a utilização da câmera de múltiplos planos foi “The Old Mill” (1937) da série Sinfonias Ingênuas. Com ela foi possível conceber a tridimensionalidade e profundidade de campo no curta-metragem, o qual acabou recebendo dois prêmios Oscar; um por melhor filme e outro pela inovação técnica. Segundo Frank Thomas e Ollie Johnston (1995) o lançamento do curta-metragem “The Old Mill”, mostrou que o público podia ser rematado pela arte pura e tornar-se profundamente envolvido em um filme animado.
“The Ugly Duckling” (1939)
O último curta da série Sinfonias Ingênuas lançado em 1939, foi “The Ugly Duckling”, um remake do filme de 1931 (único da série que foi refeito), que venceu o Oscar de melhor curta-metragem de animação. A série Sinfonias Ingênuas da Disney, devido ao seu sucesso, ganhou diversos imitadores, entre eles o Merrie Melodies da Warner Bros.
Silly Symphony - Poster 
Percebe-se então que as Sinfonias Ingênuas, muito mais que um laboratório de experimentações foi a base primordial dos estudos sobre a ilusão do movimento. Com a série animada Sinfonias Ingênuas foi possível desenvolver e aplicar as inovações técnicas, desenvolver estratégias de produção, e principalmente, a elaboração de uma linguagem própria da animação que estabeleceu os códigos referentes aos movimentos e a atuação dos personagens animados. Todo esse desenvolvimento técnico e artístico levaram o estúdio Disney à produção de algo que seria o marco na história do cinema de animação e do cinema mundial.