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20 de março de 2016

História do Cinema de Animação – A evolução da animação digital e a computação gráfica (23ª Parte)

Enfim, nossa série de artigos sobre a História do Cinema de Animação adentra na era da animação digital. A técnica de animação digital, ou popularmente conhecida como animação 3D, se caracteriza como a criação de imagens em movimentos utilizando aparatos tecnológicos da computação. Mas antes de ponderarmos mais sobre essa técnica tão presente hoje nos filmes animados, é necessário conhecer um pouco mais do desenvolvimento da computação gráfica, do próprio computador como instrumento de criação artística e como o próprio cinema aproveitou dessa mediação.
Typhoon, computador gigantesco da década de 1950 
Nossa história não vai focar sobre o surgimento e a evolução do próprio computador. Vamos iniciar na década de 1950, que é marcada, principalmente, pelos imensos computadores que ocupavam uma sala inteira. Devido aos altos valores para sua montagem e manutenção, esse tipo de computador ficava restrito a grandes empresas e bancos. A partir da década de 1960, foi possível a redução dos tamanhos das principais peças dos computadores que desencadeou a classe de microcomputadores com preços mais acessíveis e o próprio advento da computação gráfica.

“Assim, num paralelo, poderíamos dizer que a década de 1960 está para animação computadorizada assim como o período que vai de 1900 a 1910 se coloca para animação tradicional, em que as técnicas básicas passam por uma fase de intensa experimentação e descobertas” (LUCENA, 2005, p.206).
Catalog (1961) de John Whitney
John Whitney Sr. foi um dos pioneiros ao criar animações utilizando como apoio os computadores. Seu primeiro trabalho, Catalog (1961) demonstra como a tecnologia também pode ser utilizada com intuito artístico. Catalog na verdade é uma coletânea de animações de formas abstratas e tipográficas, na qual Whitney utilizou um computador analógico que o ajudou na elaboração do movimento dos pontos e superfícies feitos a mão. A dedicação e motivação de John Whitney ao trabalhar com animações abstratas foi responsável por atrair a atenção do público para a utilização dos avanços computacionais como expressão artística e criativa.
2001: Uma odisseia no espaço (1968) 
Com a evolução da computação, o cinema também soube utilizar deste progresso para a aplicação em seus filmes, especialmente na utilização dos primeiros efeitos visuais. O filme 2001: Uma odisseia no espaço (1968) de Stanley Kubrick obteve um visual futurístico graças ao avanço da tecnologia da computação e os efeitos visuais convincentes. O filme contou com diversos recursos de efeitos visuais para ilustrar a visão futurística mostrando textos e imagens animadas em telas de computadores e até mesmo uma deformação do espaço-tempo pela aceleração da nave espacial.
Pong - o primeiro videogame
A década de 1970 foi marcada por duas grandes mudanças que foram importantes contribuições para o avanço das animações digitais: a domesticação da tecnologia da computação através dos videogames e a utilização das primeiras CGIs (Computer Generated Images) no cinema. O nascimento dos videogames permitiu que o público utilizasse em sua própria residência a tecnologia computacional como forma de entretenimento. Mesmo utilizando de elementos gráficos rudimentares os games apresentava exemplos de imagens geradas por computadores.
As primeiras CGI's da história do cinema
As primeiras CGI’s mesmo que de forma primitiva comparado aos padrões atuais foram utilizadas no filme Onde ninguém tem alma (1973). John Whitney Jr, filho no animador digital pioneiro, conseguiu criar um efeito visual que demonstrava a visão infravermelha de um robô, apresentando uma imagem bastante pixelizada na tela.
Industrial Light & Magic
 É importante observar que o cinema consagra da evolução da linguagem computacional, modificando e revolucionando também sua própria linguagem ao estabelecer os efeitos visuais. Nesse momento, surge as empresas responsáveis pelos efeitos visuais, estudando as melhores formas de aplicar a computação gráfica ao cinema, sem comprometer a diegese do público. A empresa Industrial Light & Magic (IML) é uma das que se destacam nesse segmento. O filme Guerra nas Estrelas: Uma Nova Esperança (1977) mesmo apresentando uma pequena cena com uma animação digital, demonstra bem a revolução que os efeitos visuais trariam ao cinema. No próximo artigo abordaremos a explosão digital da década de 80 e o próprio surgimento dos primeiros curtas totalmente animados digitalmente.

28 de fevereiro de 2016

História do Cinema de Animação – O Stop-motion e os efeitos especiais (22ª Parte)



No último artigo da História doCinema de Animação conhecemos mais sobre o surgimento e utilização dafascinante técnica – o stop-motion. Vimos também que ela ainda é amplamente utilizada em filmes animados. Inclusive durante muito tempo o stop-motion foi utilizado para a construção de efeitos especiais nos cinemas. No artigo de hoje vamos conhecer mais sobre a diferença entre efeito especial e efeito visual, o uso do stop-motion como efeito especial e um pouco mais sobre Ray Harryhausen, o mestre dessa encantadora técnica.
A evolução dos efeitos especiais e visuais
O cinema tem a capacidade de demonstrar na grande tela: amplas explosões, monstros místicos, batalhas colossais e diversos outros elementos de fantasia e ação que encantam e satisfazem seu público dando ainda mais realismo a narrativa ficcional. Todos esses efeitos excêntricos utilizados desde os primórdios do cinema são chamados de efeitos especiais e efeitos visuais. E antes de apresentarmos sobre o tópico principal deste artigo – uso do stop-motion como efeito especial – é necessário descrever a principal diferença entre os efeitos especiais e os efeitos visuais.
A captura de movimentos do personagem Hulk em Os Vingadores (2012)
Os efeitos visuais também chamados de efeitos digitais são aqueles construídos na pós-produção fílmica utilizando de um computador com algum software específico para isso. Os efeitos visuais são amplamente utilizados atualmente, podemos citar como exemplos: composição digital, correção de cor, personagens e/ou cenários virtuais e a captura de movimento. Enquanto os efeitos especiais são realizados ao vivo durante as filmagens do próprio filme, estes são os elementos vivos e reais para o ator ou a produção do filme trabalhar em cena como: explosões reais, efeitos atmosféricos, pirotecnia e vários outros. Os efeitos especiais ainda são utilizados em alguns filmes conforme a escolha e preferência do diretor.
Willis O’Brien e sua criação
E inclusive, durante muitos anos o stop-motion foi utilizado como efeito especial em muitos filmes conhecidos. Um dos primeiros filmes que se destaca na utilização do stop-motion e acabou sendo uma solução prática para dar vida a uma das mais famosas criaturas do cinema: King Kong (1933). A criação do animador Willis O’Brien tinha apenas 45cm de altura mas repassava a ilusão de uma criatura enorme e atuou lado a lado com os atores humanos do filme. Antes da ideia de utilizar o boneco e o stop-motion foi cogitado várias ideias para dar vida ao primata desde um gorila treinado para atuar a um próprio homem fantasiado do animal. O filme se destacou, pois, o boneco de King Kong conseguiu cativar o público mostrando uma verdadeira representação artística.
Willis O’Brien animando sua criação
O stop-motion inclusive era frequentemente combinado com as filmagens reais, pois era a saída ideal para problemas relacionados a orçamento, tamanho dos cenários ou até mesmo pela dificuldade da elaboração de algum outro tipo de efeito especial. No próprio King Kong foram usadas bonecas da atriz Fay Wray para simular a atuação com o gorila. Em outros filmes utilizava-se o stop-motion para representar grandes colisões de veículos e aviões na tentativa de dar realidade para a narrativa. No filme O Império Contra-Ataca (1980) as enormes máquinas AT-AT walkers eram na verdade pequenos modelos que ganharam vida e o aspecto abissal graças ao stop-motion.
Making of  das AT-AT 
Mas foi exatamente na tentativa de oferecer vida à fantasia que o stop-motion marcou a história do cinema. Foram vários monstros, dinossauros e diversas outras criaturas maravilhosas criadas por exímios animadores que deram a devida realidade a diversos filmes de fantasia. E nesse quesito o nome de Ray Harryhausen (1920-2013) é que mais se destaca devido a sua imaginação audaciosa.
Ray Harryhausen  e algumas de suas criações
Aos 13 anos de idade Ray Harryhausen teve a oportunidade de assistir King Kong e sentiu intrigado com as imagens do gorila no topo do Empire States. A partir desse evento, a animação mudaria a vida de Harryhausen. Ele teve a chance de iniciar sua carreira trabalhando com O’Brien, diretor de King Kong, e acabou tornando-se referência em efeitos especiais. Para o mestre, o stop-motion era a possibilidade de construir um mundo de sonhos e fantasia, transformando a realidade em imaginação.
As criações do Mestre Ray Harryhausen
Ray Harryhausen foi o artista que fascinou crianças e adultos durante meio século, influenciou a atual geração de artista de efeitos visuais e é reverenciado por grandes diretores do cinema, entre eles Steven Spielberg e Tim Burton. Harryhausen foi um dos principais responsável em dar vida a distintos personagens lendários (polvo gigante, dragão, ciclope, hidra, harpia, centauro, medusa) de diversos filmes: O Monstro do Mar Revolto (1955), A 20 Milhões de Milhas da Terra (1957), Simbad e a Princesa (1958), Jasão e os Argonautas (1963) e o clássico Fúria de Titãs (1981).
 Efeitos visuais e o stop-motion de Frankenweenie (2012)
Com o desenvolvimento da computação gráfica, a grande maioria dos efeitos deixaram de ser especiais e tornaram-se visuais. Os computadores e softwares de efeitos visuais trouxeram ao público do cinema uma verossimilhança atrativa e convincente. O stop-motion realmente deixou de ser utilizado como efeito especial, mas o seu poder de fascinação e tamanha beleza ainda reside nas animações que agora podem utilizar da delicadeza dessa técnica juntamente com elementos dos efeitos visuais. Deixando claro que o aparecimento e desenvolvimento de novas tecnologias não acarreta na substituição de um meio pelo outro, mas principalmente na possibilidade de ambos os meios serem utilizados como forma de expressão de humana.

31 de janeiro de 2016

História do Cinema de Animação – A Beleza do Stop-motion (21ª Parte)

Provavelmente vocês já assistiram filmes animados como: "O Estranho Mundo de Jack" (1993), "Fuga das Galinhas" (2000), "A Noiva-Cadáver" (2005), "O Fantástico Senhor Raposo" (2009), "Coraline" (2009), "Paranorman" (2012), "Boxtrols" (2014) e o "Pequeno Príncipe" (2015); ou até mesmo filmes em live-action como: "King Kong" (1933), "Jasão e os Argonautas" (1963), "Star Wars - O Império Contra-Ataca" (1980) e "Fúria de Titãs" (1981). Mas o que esses filmes têm em comum? Todos utilizaram a técnica cinematográfica chamada stop-motion. No artigo dessa semana vamos conhecer um pouco mais dessa técnica e como ela está presente na História do Cinema de Animação.

Foto dos bastidores de ParaNorman (2012)

O stop-motion é definido como a técnica cinematográfica em que a câmera é parada e reiniciada repetidamente, na qual se cria a ilusão do movimento por meio do da sobreposição do registro, quadro a quadro, a partir da manipulação de objetos em um determinado cenário. Está técnica de animação é lenta e trabalhosa, e até mesmo um filme curto exige paciência e energia do animador. Por outro lado, o resultado final pode ser incrível e o animador, seja ele experiente ou apenas um entusiasta e iniciante desta técnica, tem a oportunidade de se sentir um deus criador que dá vida a sua obra.

Stop-motion com Insetos de 1912

Podemos dizer que foi com o mágico e cineasta George Méliès que a técnica de stop-motion se principiou. Devido ao pequeno acidente durante as filmagens do artista e com sua genialidade foi possível congelar o movimento e começar a produção dos trickfilms, também popularmente conhecidos como os filmes de efeitos. Como Barry Purves (2011) afirma, talvez George Méliès “não tenha inventado o stop-motion tal como o conhecemos hoje, mas certamente deu início à sua existência”. Depois da inovação de Méliès, o stop-motion foi utilizado como efeito especial no cinema americano e na Europa a técnica começa a ser utilizada com narrativas que apresentam apenas a manipulação de bonecos.

A beleza das miçangas em Bead Game (1977)

Essa magnífica técnica nos permite animar com diversos materiais (bonecos articulados, argila, tecido, borracha, móveis, alimentos, papel e etc.) que vão ser manipulados em um determinado espaço, reagindo naturalmente a fatores como à luz, ao foco e à profundidade. Inclusive alguns grandes nomes de animadores se destacam pelo tipo de material utilizado na construção do stop-motion. Deixo destacado o russo Ladislaw Starewicz que utilizava insetos e animais em suas animações e o indiano Ishu Patel que utilizou miçangas para construir a narrativa de "Bead Game"(1977), que retrata a evolução animal e a violência humana.

O stop-motion como efeito especial em Jasão e os Argonautas

O stop-motion foi extremamente importante para a história do cinema. Pois foi com essa técnica de animação que foi possível construir diversos efeitos especiais, introduzindo importantes elementos de fantasias e ação nas narrativas fílmicas. Os filmes citados no início desse texto: "King Kong" (1933), "Jasão e os Argonautas" (1963), "Star Wars - O Império Contra-Ataca" (1980) e "Fúria de Titãs" (1981) utilizaram a técnica de stop-motion como efeito especial. Na próxima postagem abordaremos mais sobre a utilização do stop-motion como efeito especial.

Os bastidores de Boxtrolls (2014)

Contudo, a técnica de stop-motion está intrinsecamente ligada ao cinema de animação, antes mesmo do seu surgimento e até hoje os filmes animados em stop-motion cativam e são cheios de tamanha beleza. Nesses filmes todos os detalhes (acessórios, figurinos, personagens e cenários) são criados numa escala de miniatura o que permite a interação humana para a construção do movimento. Os filmes em stop-motion são apreciados por seus próprios méritos e as singularidades únicas, e essa singular técnica jamais tem o intuito de competir com a sofisticação dos computadores.

Stop-motion como publicidade 

É importante ressaltar que a técnica de stop-motion não é exclusiva para os filmes, sejam eles longas ou curtas-metragens, ela é também amplamente utilizada em publicidades e videoclipes. Inclusive você mesmo pode fazer seu próprio stop-motion. As fotos que vão dar a ilusão do movimento podem ser capturadas até mesmo com celulares e webcam, utilizando objetos da sua vivência, e claro, basta abusar da criatividade.

6 de dezembro de 2015

História do Cinema de Animação – O Legado do Estúdio Hanna-Barbera (20ª Parte)

No último artigo da série da História do Cinema de animação abordamos sobre o boom da televisão na década de 1950 e como esse fenômeno contribuiu com a popularização dos desenhos animados. É impossível falar de desenhos animados e não citar um dos maiores estúdios desse tipo de produção, que deixou um legado com diversos personagens inesquecíveis: Hanna-Barbera Productions.

O legado Hanna-Barbera

Os fundadores do futuro estúdio ícone de desenhos animados, William Hanna e Joseph Barbera, começaram a trabalhar juntos em 1939 no estúdio de animação da MGM, na série mais famosa e premiada da carreira deles, Tom e Jerry, que rendeu oito Oscar de Melhor Cartoon entre 1943 e 1953. Ainda trabalhando para a MGM, em 1944, fundaram a H-B Enterprises, responsável por desenvolver comerciais para a televisão e aberturas de filmes e seriados. Em 1957, quando a MGM fechou seu estúdio de animação, Hanna e Barbera dedicaram também à produção de desenhos animados na própria empresa. A primeira série de desenhos animados da companhia foi Jumbo e Ruivão (The Ruffy & Reddy Show).

Os Flintstones (1960)

A mudança de nome para Hanna-Barbera Productions aconteceu depois do sucesso dos desenhos animados: Dom Pixote (1958) e Pepe Legal (1959). Nesse momento, o estúdio de William Hanna e Joseph Barbera era considerado o maior produtor de desenhos animados para a TV. Em 1960, estreava um dos maiores marcos de criação do estúdio: Os Flintstones, considerada uma das séries animadas mais duradoura. O sucesso dos Flintstones foi tão grande, que a série foi a primeira a ser transmitida em horário nobre.

Os personagens dos Flintstones já foram usados para anúncios publicitários de cigarros 

A família da idade da pedra gerou ao estúdio um grande faturamento já que os personagens do desenho animado foram licenciados para serem utilizados desde a brinquedos e produtos alimentícios. Essa capitalização com a publicidades dos personagens permitiu a construção de uma sede Hanna-Barbera em 1963, que aumentou significativamente a produção de desenhos animados do estúdio.

Corrida Maluca (1968)

Consolidada como primeiro estúdio de animação especializado em produção para TV, Hanna-Barbera Productions foi responsável por diversas produções que monopolizou as manhãs de sábado nos canais americanos ao longo da década de 1960: Manda-Chuva (1961), Os Jetsons (1962), Jonny Quest (1964), Zé Colmeia (1961), Maguila (1964), Formiga Atômica (1965), Space Ghost e Dino Boy (1966), Corrida Maluca (1968) e Scooby-Doo (1969).

Super-Amigos (1973)

E se engana quem acha que a Hanna-Barbera Production era responsável apenas por desenhos animados. O estúdio produzia, também, comerciais para a TV, aberturas de seriados em ação ao vivo (A Feiticeira) e inclusive alguns projetos para o cinema, como o filme longa-metragem Um Homem Chamado Flintstone. Hanna-Barbera também trabalhou com adaptações de super-heróis tanto da DC Comics como da Marvel Comics: Os Quatro Fantásticos (1967) e Super-Amigos (1973) baseados na Liga da Justiça. 

Exemplo de looping na corrida dos personagens

O estúdio se destacou no mercado devido ao sistema utilizado em seus desenhos animados, focado nos movimentos simplificados. Observa-se que nos desenhos do estúdio quando ocorria a movimentação dos extremos dos personagens o restante do corpo continuava imóvel, ou quando o personagem corria apenas o fundo da cena apresentava um looping constante. As produções também se destacavam pelos diálogos, efeitos e trilha sonora sempre marcante. A junção desses procedimentos artísticos e técnicos permitiu a redução do número de desenhos por minutos e o sucesso do estúdio.

Capitão Caverna (1977)

Na década de 1970 (e final da década 1960), o estúdio produziu outras animações tradicionais que se destacaram: Josie e as Gatinhas (1970), O Fantasminha Legal (1971), Capitão Caverna (1977) e até mesmo releituras para o marinheiro Popeye (1978) e a premiada dupla de outras eras, Tom e Jerry (1975). Na década de 1980, o estúdio começava a perder mercado e surgia os problemas financeiros. A sobrevida do estúdio veio com a estreia do canal de TV a cabo Cartoon Network em 1992, que inaugurou novos seriados com personagens memoráveis: O laboratório de Dexter, Johnny Bravo, A Vaca e o Frango, Eu sou o Máximo e as Meninas Superpoderosas.

No final da década de 1990, as produções do Cartoon Network já não apresentavam o nome Hanna-Barbera. Nos anos 2000, é marcado pelo falecimento dos mestres William Hanna (22 de março de 2001) e Joseph Barbera (18 de dezembro de 2006). Atualmente, as produções e todo o incrível legado de desenhos animados e grandes personagens que marcaram a história e a infância de muitas gerações, é propriedade da Time Warner.


8 de novembro de 2015

História do Cinema de Animação – A Televisão e o Desenho Animado (19ª Parte)

Nas últimas semanas conhecemos um pouco de alguns dos principais estúdios que contribuíram e se destacaram na história do cinema de animação. Na postagem de hoje vamos conhecer sobre o invento que trouxe grandes alterações para o cinema de animação – a televisão. Graças a invenção desse transformador aparato tecnológico, tivemos excelentes produções de grandes estúdios, os quais ficaram responsáveis pela produção das chamadas séries animadas para televisão, popularmente conhecidas como desenhos animados.

O teste de transmissão com o boneco do Gato Felix 
Sabemos que o homem sempre desejou dar movimento a suas obras estáticas, com o surgimento do cinema esse anseio foi suprido. Contudo, ainda existia o desejo de transmissão de imagens em movimento a grandes distâncias. No decorrer da década de 1920 temos os primeiros modelos de aparelho de televisão. Inclusive, o incrível personagem gato Felix foi a primeira imagem a ser transmitida em um receptor de TV, ao utilizarem, em 1928, o personagem como teste de transmissão de TV.

Ruffy e Reddy (1957)

         Depois disso, a televisão passou por um processo de lapidação que permitiu o desenvolvimento dos aparelhos e das tecnologias responsáveis pela transmissão da imagem. E na década de 1950 temos o boom da televisão, deixando de ser um artigo de luxo, para se tornar um importante meio de comunicação e principal responsável pela transmissão e popularização dos desenhos animados.

Tom e Jerry (1943)

            Os curtas animados com duração média de cinco minutos que mostravam personagens em situações cômicas e algumas delas de extrema maluquice eram exibidos no cinema, antecedendo o cinejornal, o documentário, os trailers e o próprio filme de ação ao vivo, que compunham a sessão de cinema. Essas sessões de cinema eram assistidas principalmente por adultos. Com o surgimento da TV, esses curtas animados passaram a serem exibidos como forma de preenchimento da grade de programação das emissoras que carecia de programas, reprisando o sucesso de grandes personagens animados do cinema: Pica-Pau, Tom e Jerry, os Looney Tunes e até mesmo Mickey Mouse. Nesse momento, os curtas-metragens animados eram apresentados como uma série (vários filmes animados seguidos) em um programa da emissora de TV, conduzido por um apresentador.

O sábado de manhã

            Além disso, sucedeu-se a criação de um horário exclusivo na programação das redes televisas para as crianças. O sábado de manhã era um horário inexpressivo comercialmente, de acordo com os anunciantes, e por isso foi destinado ao público infantil. A partir desse momento, temos uma grande mudança de foco nas produções animadas – as séries televisas, popularmente conhecido como os desenhos animados. Esse tipo de produção de baixo orçamento, que se caracteriza principalmente pela utilização de poucos personagens e a repetição de cenários, não se traz o mesmo cuidado artístico e técnico que se tinha nos filmes animados de curtas e longas-metragens exibidos nos cinemas.

Crusader Rabbit (1949)

O desenho animado na verdade é encarado apenas como uma pura distração para o público infantil, apresentando uma animação limitada de qualidade satisfatória a baixo custo. Em 1949, foi transmitida a primeira série de desenho animado por meio da animação limitada feita para a TV – Crusader Rabbit. Ao longo dos anos o que se percebe referente a grande maioria desses desenhos animados é uma gradual decadência técnica e estética, sendo mais importante o lucro referente aos brinquedos e produtos licenciados dos personagens animados.

Scooby-Doo (1969)

 Por outro lado, não podemos deixar de evidenciar que por mais que tenha havido essa queda de qualidade, alguns estúdios, mesmo com a produção de movimentos simplificados para seus personagens, criaram desenhos animados memoráveis: Os Flintstones (1960) e Scooby-Doo (1969) produzidos pelo importante estúdio Hanna-Barbera, A Pantera Cor de Rosa (1964) de Friz Freleng Peanuts (1965) de Charles M. Schulz. Contudo, não podemos deixar de evidenciar que os desenhos animados foram os principais responsáveis pela classificação errônea e preconceituosa do cinema de animação, vinculando toda a técnica à infância, por muitas vezes sendo taxada como gênero, exclusivamente voltado para o público infantil.

18 de outubro de 2015

História do Cinema de Animação – National Film Board e Norman Mc Laren (18ª Parte)

Nas últimas semanas apreciamos um pouco do desenvolvimento do cinema de animação comercial, inclusive conhecemoso estúdio United Productions of America (UPA), que apresentou um estilo artístico inovador e revolucionário. Indo em direção totalmente oposta a essa produção comercial, no Canadá, teremos o National Film Board que vai desenvolver um cinema de animação voltado principalmente para a pesquisa e a experimentação. Um dos principais representantes dessa vertente será o artista e cientista Norman McLaren.
National Film Board of Canada
A partir de 1939, o National Film Board desenvolve uma produção de filmes animados com ênfase em técnicas artesanais. Com a ajuda financeira que recebiam do Canadá, os animadores do estúdio trabalhavam com liberdade. E um dos intuitos principais do National Film Board era desenvolver um cinema de investigação sobre a técnica, não se preocupando com a rentabilidade dos filmes produzidos. Claro que a ajuda que recebiam do Estado Canadense permitia a promoção ou a própria propaganda de elementos ditados pelo governo. Pois, estes acreditavam que a animação era uma das eficazes formas de repassar uma mensagem governamental.
Norman McLaren (1914 - 1987)
Norman McLaren é considerado um dos principais artistas do National Film Board, pois quando entrou para a organização na década de 1940 o departamento de animação ganhou destaque e distinção por seus trabalhos experimentais. McLaren foi argumentista, desenhista e animador, responsável por integrar um universo visual e sonoro capaz de produzir de forma independente e principalmente partindo contra a animação comercial, extremamente abundante nos anos 1940.
Boogie-Doodle (1941)
Norman McLaren estudou na Escócia e a partir de 1930 iniciou suas experimentações estéticas explorando técnicas alternativas de animação. McLaren desenvolvia um trabalho artístico focado principalmente na essência do movimento. “Animação não é a arte do desenho que se move; ao invés disso, é a arte do movimento que é desenhado. O que acontece entre cada frame é mais importante do que acontece em cada frame.” – Uma das mais conhecidas citações de McLaren demonstra bem sua fascinação com o movimento, e como este elemento é a essência do cinema de animação.
Blinkity Blank (1955)
McLaren pesquisou e trabalhou com diferentes técnicas de animação conhecidas e contribuiu com grandes inovações artísticas para o cinema de animação. Ele foi responsável pelo desenvolvimento de diversas técnicas como o método direto de pintar sobre a película. O método direto consistia em desenhar diretamente na película cinematográfica de 35mm, essa técnica impossibilitava a criação de cenas complexas, mas explorava a simplicidade visual e expressiva obtendo resultados incríveis e com uma continuidade sem igual.
Mosaic (1965)
McLaren também se preocupou com a sonoridade e a sincronização de som e imagens trabalhando de forma poética. Com isso criou a animação sintética do som que consistia em desenhar a música e os efeitos sonoros diretamente na banda óptica do filme que permitia a criação original de trilhas sonoras em perfeita sincronia com o movimento e as características visuais.
A guerra entre vizinhos de Neighbours (1952)
O cineasta Norman McLaren sempre foi visto como modelo de ativismo político de esquerda. E com sua obra mais consagrada e vencedora de um Oscar, Neighbours (1952), McLaren demostra bem sua empatia contra as lutas, já que o próprio filme é uma alegoria contra as guerras, o combate presente na narrativa do curta-metragem demostra bem a estupidez humana de qualquer conflito. O filme premiado Neighbours foi feito utilizando a técnica de Pixillation, que consiste em uma animação de stop-motion na qual a ilusão do movimento é criada por meio do registro, quadro a quadro, da manipulação de pessoas. O objetivo do filme era encontrar uma forma de harmonia audiovisual para dar conta da harmonia (utópica) do mundo.
The Bead Game (1977) de Ishu Patel
Norman McLaren deixou como legado 59 filmes de animação. O renomado artista   é lembrado na história do cinema de animação pelas suas contribuições revolucionárias, e o National Film Board é notado pela contribuição na busca de um cinema de animação voltado para a pesquisa e experimentação.


20 de setembro de 2015

História do Cinema de Animação – O Estúdio UPA - United Productions of America (17ª Parte)



Na última postagem conhecemos um pouco mais sobre o estúdio Fleisher, um dos principais concorrentes do estúdio Disney na era de ouro do cinema de animação. Com o sucesso dos filmes animados cada estúdio de animação instituiu áreas para seu departamento de animação, que ficaram responsáveis pela criação de importantes séries e personagens para história do cinema, que fugiam totalmente do estilo criado pelo estúdio Disney. Na Warner Brothers surgiu as séries Lonney Toons e Merry Melodies, na Universal o animador Walter Lantz criou diversos personagens marcantes, dentre eles o Pica-Pau, e William Hanna e Joseph Barbera impulsionaram a animação na MGM com a dupla: o gato Tom e o rato Jerry. Contudo, por mais que alguns dos artistas desses estúdios partiam do princípio artístico instaurado por Disney, eles exploravam isso numa abordagem diferenciada, uma comédia insana, de humor intenso. Foi com a criação do estúdio United Productions of America (UPA) na década de 1940 que o cinema de animação ganhou um estilo artístico inovador e revolucionário, utilizando a arte abstrata como linha de trabalho para seus filmes animados.
O principio do estúdio UPA
Em 1944, Dave Hilberman, Zachary Schwartz e Stephen Bosustow, três ex-funcionários da Disney que deixaram o estúdio durante a greve de 1941, juntaram esforços para produzir um curta-metragem político para Franklin Delano Roosevelt: Hell Bent for Election. E a partir dessa junção de artistas, que acreditavam que a animação era muito mais que uma imitação cuidadosamente realista da vida real, surgia a UPA (United Productions of America).
A distribuição pela Columbia Pictures
E o sucesso do estúdio UPA deslanchou ainda mais quando a Columbia Pictures se tornou a distribuidora de seus curtas-metragens animados. No primeiro instante, os animadores da UPA trabalharam com as histórias e personagens da própria Columbia e fizeram os curtas: Robin Hoodlum (1948) e The Magic Fluke (1949). Os filmes habilmente espetaculares se destacavam graças a sua comicidade bem planejada e a estilização do desenho, sendo inclusive indicados ao Oscar. A partir dessa proeza, a Columbia permitiu o estúdio UPA criar seus próprios personagens.
A distinção de Mister Magoo 
O estúdio UPA seguia suas próprias regras evitando os animais antropomórficos, tão presente na Disney, e a comédia repleta de pequenas violências dos outros estúdios. Investia ainda na criação de filmes animados tendo personagens humanos como a atração principal. E em 1949, no curta-metragem Ragtime Bear, estreava Mister Magoo, que se tornou um famoso personagem da UPA e uma espécie de símbolo para uma nova geração, além do Mickey Mouse. O personagem era um adulto e seus traços psicológicos e físicos estavam longe de ser o típico queridinho de Hollywood. Quincy Magoo, um velho, baixo e careca, era um resmungão cabeça-dura, mas a sua simpatia residia principalmente na sua ingenuidade e na miopia incurável.
O premiado Gerald McBoing
A ascensão do estúdio UPA para a fama e o sucesso da sua nova linguagem estilística, veio em 1951 com o curta e também vencedor do Oscar: Gerald McBoing Boing. O curta-metragem mostrava uma criança que era incapaz de falar, mas emitia ruídos e efeitos sonoros. Gerald McBoing Boing se destacava também pela qualidade artística e principalmente por conquistar o espectador com um filme argucioso, sem a necessidade de ser uma comedia insana ou violenta.
Curta-metragem baseado num conto de Edgar Allan Poe
O estúdio UPA também foi responsável por outros grandes sucessos tais como: Rooty do Toot do Toot (1951) e The Tell-Tale Heart (1954) que apresentavam impressionantes desenhos sofisticados, totalmente diferenciados dos demais estúdios de animação. Por isso, o chamado "estilo UPA" acabou influenciando mudanças significativas nos outros principais estúdios de animação, incluindo Warner Bros., MGM, e até mesmo Disney, inaugurando uma nova era de experimentação na animação.
A revolução e inovação de estilos da UPA
Mesmo com toda essa inovação e estilo, o estúdio UPA perdeu toda a sua criatividade artística e qualidade dos filmes quando começou com sua produção para TV. Contudo, sua imprescindível contribuição para o cinema de animação marcou a história, principalmente com os seus principais representantes Mister Magoo e Gerald McBoing Boing, simpáticos personagens que fugiam da violência e dos animais falantes tão presentes nos demais estúdios.

30 de agosto de 2015

História do Cinema de Animação – O Estúdio dos irmãos Fleischer (16ª Parte)

Anteriormente abordamos sobre a “Era de Ouro do cinema de animação”, período de doze anos (1928 a 1940), que o cinema de animação desenvolveu tecnicamente e artisticamente. Além disso, abordamos que o estúdio Disney foi um grande contribuinte para essa posição de destaque para a arte da animação. Contudo, nem tudo é Disney, outros estúdios cinematográficos de animação também fizeram grandes contribuições na Era de Ouro ao desenvolverem técnicas que alocaram o cinema de animação a esta posição. E mais que os processos artísticos, contribuíram com grandes personagens para a história do cinema de animação.
Alguns dos grandes personagens do estúdio Fleischer
O estúdio dos irmãos Max Fleischer e Dave Fleischer, Fleischer Studios, foi fundado em 1929. Os irmãos Fleischer contribuíram no desenvolvimento técnico com a invenção da rotoscopia, aparato que possibilitou uma grande evolução no desenho e movimentação de figuras humanas. E muito antes de “Steambolt Willie”, o primeiro filme animado sonoro, os irmãos Fleischer tentaram uma inovação na sincronização sonoranos filmes animados.
Koko, o primeiro personagem dos Fleischer  

Contudo, os irmãos Fleischer vão se destacar principalmente no visual de grande apelo nos personagens criados pelo estúdio. A dupla de animadores é considerada a principal força que se contrapôs ao estúdio de Walt Disney, criando personagens de sucessos com uma concepção gráfica e narrativas bem diferentes produzidas pelo estúdio de Mickey Mouse.
A sensualidade de Betty Boop
A sensual Betty Boop, surgiu com uma pequena participação em um desenho da série Talkartoons (série que representou a entrada do estúdio Fleischer no cinema de animação sonoro) produzidos na década de 1930. E em 1932, a personagem de rosto redondo desproporcional ao seu corpinho ganhou sua própria série de desenhos, exibindo além de bastante sensualidade, o talento como cantora e uma construção visual (saia curta e liga numa das pernas) bastante distinta para um personagem animado. Devido a esse visual de grande apelo sexual, Betty Boop foi acusada de ser um libelo em favor do sexo. O “moralismo” e a censura americana prejudicaram bastante a popularidade da personagem. A partir de 1934, Betty Boop foi perdendo algumas de suas principais características visuais (a sexualidade e a roupa sexy) e consequentemente a popularidade e, enfim, sua série animada. Ela somente foi resgata na década de 1980, quando a personagem voltou a ser conhecida e apreciada pelo público.
Marinheiro Popeye
Outro personagem de destaque do estúdio Fleischer é o marinheiro Popeye, com seu visual extravagante e caricaturesco, que ganhava força descomunal quando comia espinafre. O personagem surgiu nos quadrinhos e, em 1933, estreava sua animação em histórias limitadas sobre a sua namorada Olívia (caracterizada como “mangueira de borracha”) que sempre era sequestrada pelo vilão Brutus.
O 1º longa-metragem dos irmãos Fleischer
O estúdio dos irmãos Fleischer detinha o apoio financeiro da Paramount, que era a distribuidora de seus filmes animados.  O sucesso de Disney com“Branca de Neve e os sete anões” fez com que a Paramount pressionasse os animadores Fleischer para a construção de seu primeiro longa-metragem – “As Viagens de Guliver”. O filme foi lançado em 1939, mas o rendimento da bilheteria do filme não foi o suficiente para recuperar todos os gastos da produção iniciada em 1935.
 "É um avião? Não, é o Superman!"
Com a série “As Aventuras do Super-Homem” de 17 episódios, Max e Dave Fleischer em 1941, resgatam a importância e a contribuição dos irmãos para a história do cinema de animação. A série utilizava a técnica de rotoscopia nos personagens humanos e apresentava uma animação estilizada, com cenários bastantes sofisticados. O personagem herói Super-Homem não voava totalmente, mas dava grandes saltos, com o tradicional uniforme da cueca sobre a calça e o grande símbolo “S” estampado no peito.  Foi nesta saudosa série do homem de aço que a famosa frase “Olhem lá no céu! É um pássaro? É um avião? Não, é o Superman! ” foi principiada.  “As Aventuras do Super-Homem” foi o triunfo final do estúdio Fleischer.
Os irmãos Max e Dave Fleischer
O estúdio Fleisher, sendo os principais competidores contra as estrutura e princípios formulados pelo estúdio Disney para a construção de filmes animados, se destacaram exatamente por essa tentativa de construir personagens e narrativas que ia além do estúdio de Mickey Mouse. Os irmãos Fleischer contribuíram tanto em termos técnicos e artísticos, mas principalmente na elaboração de personagens que destoavam com sua caracterização e comportamentos incomuns para uma figura dramática animada. Pode-se dizer que tal posicionamento permitiu essa gama de personagens distintos, tanto em caracterização quanto personalidade, que enriquece o cinema de animação.      

16 de agosto de 2015

Branca de Neve e os Sete Anões – O filme marco na história do cinema de animação (3ª Parte)

Nas últimas semanas conhecemos um pouco mais do processo de produção e curiosidades que fizeram do primeiro longa-metragem do estúdio Disney – “Branca de Neve e os sete anões” um marco na história do cinema de animação. Walt Disney em diversos momentos do filme se questionava sobre a credibilidade das cenas para o público e por isso a produção de algumas delas demorava mais que o esperado.
Branca de Neve e o Caçador
A sequência em que o caçador tenta exterminar a inocente Branca de Neve exigiu mais de seis meses de uma preparação minuciosa feita pela equipe responsável. Para ela foi necessária toda a competência possível para que um desenho com características humanas pudesse tirar a vida de outro desenho. De que forma o público reagiria? Preocupariam com a personagem ou acharia burlesca essa situação? Elementos esses inéditos para o cinema de animação, que somente foram possíveis graças aos princípios da animação e o storyboard, já que o mesmo serviu para construir e visualizar toda a técnica cinematografia e a montagem necessária para esta cena. O historiador John Canemaker, afirma que esta cena, especificamente, teve uma montagem seguindo o estilo do cineasta D. W. Griffith para manipular as emoções e as percepções da plateia.
A câmera não se prende a protagonista cantante
Outro destaque do filme marco é a trilha musical gravada por uma orquestra de 80 músicos. As oito canções do filme ganharam versões em diversas outras línguas, e tornaram-se popular em todo o mundo. Além disso, em quase todas as cenas musicais do filme, Disney nos mostra uma pequena história visual sobre as diversas personalidades da cena e situações prosaicas, enquanto a música é cantada. Método que se tornou comum nos filmes e roteiros da Disney, no qual, a câmera não se prende à personagem cantante. Enquanto a canção é iniciada, a animação nos fornece estes belos roteiros visuais. A intenção deste método é dar maior importância ao visual e não ao musical.
Eu vou pra casa agora eu vou!
A sequência da Mina possui uma das trilhas sonoras mais marcantes do filme. A canção “Eu vou” (Heigh-Ho) ganhou espaço fora da banda sonora do filme é está presente nas cantigas de rodas dos institutos educacionais para crianças. Esta canção tornou-se um marco nas lembranças infantis de todos nós, quem nunca cantou os versos da cantiga de “Eu vou”?
As diversas referências cinematográficas dos clássicos do cinema de terror
Os desenhos e layout de cenas da parte do calabouço da Rainha são extraordinariamente bem trabalhados, fazendo inclusive referência a clássicos do cinema de terror como: Frankenstein, O Homem Invisível e a Noiva de Frankenstein. E também da vanguarda expressionista alemã da década de 20 como Nosferatu. A cena é carregada de elementos sombrios como ratos, teias de aranhas, caixões, caveiras, corvos e sombras para evidenciar a transformação da Rainha em uma Bruxa velha, feia e carrancuda.
As bochechas maquiadas da Princesa
A cor foi também um dos aspectos que recebeu todo cuidado e cautela no filme. Se tratando do primeiro longa-metragem animado e colorido, qual seria a reação do público quanto à cor? Tanto que optaram por cores neutras em tons pastéis. Foram diversos meses de pesquisas para chegar aos tons utilizado para colorir os personagens e cenários do filme.
Ainda sobre a colorização, observando as bochechas levemente rosadas de Branca de Neve, acha-se que é um efeito da tinta escolhida para a colorização do filme. Porém, este é um dos segredos da produção onde foi utilizada maquiagem verdadeira – ruge – aplicada em cada frame do filme para dar cor às bochechas da princesa. Trabalho feito pelas mulheres responsáveis pela colorização e que foi devidamente aprovada e apreciada por Walt Disney.
Era uma vez...
A narrativa de “Branca de Neve e os sete anões” ostenta, desde o “Era uma vez...” inicial até o “viveram felizes para sempre”, um conto com um tema clássico, performances emocionantes e divertidas, em um desenho rico em detalhes, de uma qualidade incomparável e uma trilha sonora memorável. Sendo o resultado definitivo do desenvolvimento técnico e narrativo do cinema de animação. Com o devido reconhecimento como arte e servindo de parâmetros para outras produções do gênero. Foi a produção pioneira no gênero em Hollywood, provando aos muitos céticos da época que um longa-metragem de animação era um gênero de cinema viável e que também era emocionante para o público. Além de mostrar aos críticos que a animação era um meio indiscutível de expressão artística do mais alto nível.
Todo o filme, na verdade, teve a aplicação de ingredientes certos (roteiro, técnicas, direção, fotografia, montagem e trilha sonora) que foram precisa e cuidadosamente empregados. E o mestre-cuca desta receita é Walt Disney, que nos mostra que apenas um momento de inspiração não é o suficiente para construir uma obra de arte. Para constituir arte é preciso muito esforço e dedicação, principalmente para a animação, que revela um trabalho árduo na construção de seus filmes.
Making of de "Branca de Neve"
E foi graças à “Branca de Neve e os sete anões” que hoje, as animações podem ter este destaque na mídia, por isso, a intitulam de “Aquela que começou tudo”. Mais que um marco para história da animação “Branca de Neve e os sete anões” levou a emoção próspera para as plateias que vivenciavam uma era de “Grande Depressão”. O público encontrou nas personagens animadas, que pareciam reais, bidimensionais e dotadas de personalidades, um mundo colorido, diferente da realidade cinza que até então presenciavam. As emoções se mesclavam entre o horror e o medo que a Rainha Bruxa causava e a alegria e diversão que os anões propiciavam. A Bruxa acabou se tornando ícone de maldade universal, e os anões habitam e enfeitam os jardins das residências com seus carismas. As músicas não ficaram apenas nos assobios e no cantarolar dos espectadores, após a sessão do filme na época. As canções ganharam versões em várias outras línguas, tornando-se populares e clássicas em todo o mundo. Ainda hoje, quase oito décadas após sua estreia nos cinemas, o filme cativa tanto as crianças quanto aos adultos.

Lá no nosso estúdio temos a certeza de uma coisa. Todas as pessoas no mundo foram crianças um dia. Por isso quando planejamos um novo filme não pensamos em adultos ou crianças, mas naquela bondade e pureza bem dentro de cada um de nós que o mundo pode ter feito nos esquecer e que talvez nossos filmes possam ajudar a trazer de volta – Walt Disney


O sucesso de “Branca de Neve e os sete anões”, permitiu que o estúdio Disney continuasse explorando novas tecnologias e técnicas narrativas na história e na arte da animação. O que de certa forma, favoreceu uma liberdade para inovar e construir novas bases para os longas-metragens produzidos até hoje, constituindo novos marcos e prêmios para seu estúdio. Walt Disney ao produzir “Branca de Neve e os sete anões” criou um filme excelente, uma obra de arte que transcendeu o tempo e auferiu seu lugar entre os grandes clássicos.