24 de junho de 2017

Diário Animado - Annecy 2017 - Dia V

Antes de falar mais sobre os filmes no meu quinto dia de diário animado, vou dar minha impressão sobre a cidade de Annecy.

É uma cidade no meio da França, situada no lado leste do país. É bem mais perto de Genebra que de Paris! Sua bandeira, inclusive parece a bandeira da Suíça, sendo que os braços da cruz branca de Annecy, dividem a bandeira em quatro quadrados vermelhos.

No verão, como agora, é bem quente: mais de 30 graus. E no inverno é frio. É aos pés das cadeias de montanhas onde fica o Mont Blanc – aquele “das canetas”.


Tem um lago lindo, de águas literalmente cristalinas, quase inacreditável! Dá vontade de voltar em outro momento só para curtir a cidade - pois isso eu não fiz, na correria de assistir às sessões.




Bem, vamos a elas!


Foram duas sessões de curtas e uma de longa-metragem.

Sessão Curtas Off-Limits
É uma sessão “
reservada aos curtas-metragens com foco na exploração, na inovação
e na experimentação”. Quase todos são não-narrativos, então vou me ater a uma pequena descrição e impressão sensorial do que vi.

Cinéma Emek, Cinéma Labour, Cinéma Travail - Cinema Emek, Cinema Lavoura, Cinema Trabalho

Direção : Özlem Sulak
País: France, Turquia
Ano de produção: 2016
Duração : 05 mn 15 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D, 3D

É uma animação que mostra como era o grande cinema Emek, em Istambul, que foi demolido em 2010. Ele começa com o teto da sala principal do cinema sendo desenhado por linhas que correm e montam todos os detalhes arquitetônicos do local. Era um ambiente grande e bonito. Como animação, pela própria proposta descritiva, acaba sendo um pouco cansativo.

Fuddy Duddy – Careta, antiquado

Direção : Siegfried A. FRUHAUF
País: Austria
Ano de produção: 2016
Duração : 05 mn 30 s
Técnica(s) utilizada(s) : Outras

O curta tem uma proposta filosófica: a luta entre o caos e a ordem. Visualmente vê-se – sendo bem simplista – várias imagens com quadrados brancos e pretos, de vários tamanhos, que se sobrepõem uns aos outros. Essa variação acontece em sincronia com a música, em frequências diferentes. Na mais intensa, têm-se a impressão de que se está olhando uma luz estroboscópica. Achei um pouco longo.

Johnno's Dead – A morte de Johnno

Direção : Chris SHEPHERD
País: França, Reino Unido
Ano de produção: 2016
Duração : 08 mn 26 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D, Pixilation, Rotoscopia, Outras
Trabalhando com uma mistura de técnicas, o curta mostra a agonia e o sentimento de injustiça e vingança de um homem condenado por um crime que não cometeu. Através de imagens em live-action trabalhadas com várias interferências, a narração vai contando os pensamentos do personagem. O filme reflete a agonia da situação.

Overlook - Ignorar

Direção : Pink Twins
País: Finlândia
Ano de produção: 2017
Duração : 05 mn 42 s
Técnica(s) utilizada(s) : 3D
Esta animação se inicia com uma cena parada, de uma nobre sala em estilo clássico, como se fosse feita de acrílico – é modelada em 3D. E começa a escorrer tinta vermelha pelas paredes, que cobre tudo. E isso ocorre algumas vezes. Também tem uma proposta filosófica. Mostrar uma ruptura espaço-tempo, e um certo horror. Particularmente, achei longo para a proposta.

Le Sentier – O Caminho

Direção : Hadrien dit Bhopal Bertuit
País: França
Ano de produção: 2016
Duração : 06 mn 35 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel
Através de diversas fotografias, é contada a história de alguém, seguida de uma narração. As fotos são centrada na tela. Estas então são pintadas de forma a tomar toda a tela com uma imagem completa. Proposta interessante, visualmente agradável, é praticamente documental.

Dix puissance moins quarante-trois secondes – Dez forças menos quarenta e três segundos

Direção : F Francis
País: França
Ano de produção: 2016
Duração : 13 mn 57 s
Técnica(s) utilizada(s) : Ordinateur 3D, Pixilation
Este curta-metragem trabalha a partir de imagem filmada slow-motion, e 3D – o homem e o universo – com trilha sonora própria, como se fosse um som aberto, durante todo o curta. A narração vai refletindo sobre a questão do tempo da vida, do instante, da finitude.
Foi a animação que ganhou o prêmio da categoria.

1960 :: Movie :: Still

Direção : Stuart POUND
País: Reino Unido
Ano de produção: 2016
Duração : 02 mn 11 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D
A animação é criada a partir de imagens do filme "L'Avventura" (1960), de Michelangelo Antonioni, especificamente, com as imagens de Monica Vitti. Dividindo a tela em 10 partes, as cenas do filme se passam de forma sequencial. O que dá um resultado e um movimento geral bem bonito e interessante. Lembram o flipbook e o efeito de caleidoscópio.

A Photo of Me – Uma foto de mim

Direção : Dennis Tupicoff
País: Australia
Ano de produção: 2017
Duração : 10 mn 48 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D, Photos, Rotoscopia, Live-action
É um curta introspectivo, em preto e branco, de um homem que reflete sobre sua vida, desde a infância através de suas fotografias. A narração vai ancorando e dando sentido às imagens. Um pouco longo para o tipo de proposta.

La Bêtise – A Estupidez

Direção : Thomas Corriveau
País: Canada
Ano de produção: 2016
Duração : 06 mn 45 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel, Rotoscopia
Outra animação em preto e branco, que aborda a questão da guerra e da violência. Inspirada nas gravuras Os Desastres da Guerra (1810-1815), de Francisco de Goya, mostra dois personagens que se agridem, numa violência hipnótica.

Orogenesis

Direção : Boris Labbé
País: França
Ano de produção: 2016
Duração : 07 mn 45 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D, Ordinateur 3D, Photos
A animação mostra em 3D a possibilidade de movimentação do plano terrestre, com a criação e alteração de montanhas. É bem atrativo, com trilha sonora coerente com as ações, mas um pouco longo demais, o que “quebra” a intensidade das imagens.

Hand Colored no.2 – Pintado à mão n.2

Direção : Lei Lei, Thomas Sauvin
País: China
Ano de produção: 2016
Duração : 04 mn 52 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel, 2D
Os artistas criaram essa animação a partir de 1168 fotografias em preto e branco achadas em mercados de pulgas chineses. Através das pinturas dessas fotos, eles se perguntam sobre a vida dessas pessoas. Proposta envolvente e visualmente alegre.

Sessão de Curtas 4

Splendida Moarte Accident – Esplendida morte acidental

Direção : Sergiu Negulici
País: Romênia
Ano de produção: 2016
Duração : 15 mn 05 s
Técnica(s) utilizada(s) : Stop motion com objetos, Desenho sobre papel, 2D, 3D
Em uma loja de antiguidades, um homem encontra uma carta de amor de 70 anos, atrás de um desenho. Ele começa a procurar o autor e “viaja” por momentos importantes da história do século XX. Muito bonita, atrativa. Pelas metáforas que cria e pelo ambiente. A passagem de tempo acontece dentro de um trem. Como se o personagem andasse dentro deste, passando pelos vagões e pelo tempo. Os personagens são como bonecos feitos de papel. Vale à pena assistir.

Kosmos

Direção : Daria Kopiec
País: Polônia
Ano de produção: 2016
Duração : 02 mn 35 s
Técnica(s) utilizada(s) : Massinha
Fazendo uso de bonecos, a animação aborda a questão da atratividade dos corpos. Mas não em “envolveu”.

Airport - Aeroporto

Direção : Michaela Müller
País: Croácia, Suiça
Ano de produção: 2017
Duração : 10 mn 34 s
Técnica(s) utilizada(s) : Peinture sur verre
Através da pintura sobre vidro, de forma que a direção das largas pinceladas vão formando as imagens, a animação vai mostrando diversas situações que acontecem em um aeroporto. Imagem inteligente, pois até pela situação, sempre há uma correria, a utilização das pinceladas reforça a ligeireza das ações. Mas achei que se fosse mais curta, como narrativa, seria melhor.

L'Ogre – O Ogro

Direção : Laurène Braibant
País: França
Ano de produção: 2017
Duração : 09 mn 41 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D
Através do desenho caricato, o curta conta a história de um homem muito grande (ele é um ogro) que em um restaurante, não para de comer. Assim, ele assusta as pessoas, mostrando seu verdadeiro eu. Lembra o filme O Sentido da Vida (1983), de Monty Python. O visual é sinuoso, com linhas finas e colorido aquarelado. Personagens e cenário se movem de acordo com a cena, e isso cria um efeito atraente às imagens do filme.

Kutxa beltza – Caixa Preta

Direção : Izibene Oñederra, Isabel Herguera
País: Espanha
Ano de produção: 2016
Duração : 07 mn 10 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel, 2D, Outras
Animação surreal, do tipo que te deixa com uma interrogação. Começa com um desenho de traços finos, colorido à caneta e aquarela, com predominâncias de brancos de verdes. A cena de uma van que chega a um condomínio de prédios, e o entregador vai fazer uma entrega. Mas em um dos apartamentos, há uma senhora com seu gato preto. O visual é totalmente diferente: traços grossos, displicentes, azuis, vermelhos, com predominância de preto. Surgem diversas cenas de guerra, elementos africanos, cemitério... Ao final, o entregador leva uma caixa... mas não vou contar o resto.

Valley of White Birds – O Vale do Pássaro Branco

Direção : Cloud Yang
País: China
Ano de produção: 2017
Duração : 14 mn 16 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel, 2D
Desenho muito bonito, colorido, e bem oriental. Metafórico, o curta conta a história de tipo de rito de passagem. A relação homem-natureza através de belas imagens. Muito bem animado, poderia ser mais curto, isso daria mais força à história.

Dead Reckoning – Navegação Estimada

Direção : Paul WENNINGER, Susan YOUNG
País: Austria
Ano de produção: 2017
Duração : 02 mn 47 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D, Pixilation

A animação fala também da finitude da vida, através de imagens da vida cotidiana e da vida de uma cidade. Com imagens em Pixilation de Viena, o filme mostra com interferências em desenho, a morte sempre presente. É curto, e por isso perfeito na proposta.

Kötü Kiz – Menina Malcriada

Direção : Ayce Kartal
País: França, Turquia
Ano de produção: 2017
Duração : 07 mn 59 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel

Animação forte. Baseado em uma história real, mostra uma menina que conta em narrativa seus pensamentos e momentos de vida, enquanto as imagens oscilam entre suas lembranças boas e ruins. Com desenhos correspondentes, “fofos”, infantis, coloridos e grotescos, fortes, medonhos. Fica claro o ataque a menina, mas de forma indireta, pela conclusão do público. Muito boa.

Contact

Direção : Alessandro Novelli
País: Espanha
Ano de produção: 2017
Duração : 07 mn 53 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D


E outro filme filosófico. Através de uma viagem interior, uma mulher se questiona sobre a vida e o sentido das coisas. Com imagem em traços em branco e fundo preto, várias situações metafóricas e surreais vão se sucedendo com a narrativa dos pensamentos da personagem, onde ela mesma perpassa por esses ambientes. O texto é muito bom, mas como animação, é o mesmo caso: poderia ser um pouco menos longa.

Sessão de longas-metragens 2

Tehran Taboo – Tabu de Teerã

Direção : Ali Soozandeh
País: Alemanha
Ano de produção: 2017
Duração : 01 h 36 mn
Técnica(s) utilizada(s) : Rotoscopia
O filme conta várias histórias pessoais dentro de um bom roteiro, sem final feliz. É um bom filme, participou do Festival de Cannes, e é claramente uma crítica à sociedade iraniana. Mostra a dura vida das mulheres – apesar de lá, elas poderem estudar – que precisam de uma aprovação por escrito do marido (ou pai) para tudo, inclusive trabalhar fora. Fala sobre as drogas, o sexo, a corrupção, a falta de esperança, etc. Por essa razão, o título: coisas que não se falam, coisas proibidas. É uma produção alemã de diretor iraniano.
Quanto ao visual, é de linhas retas grossas e com contrastes de cor e de claro-escuro. Não há como não se lembrar de Valsa com Bashir (2008), outro drama sobre o Oriente Médio. Porém, há vários momentos do filme em que a “rotoscopia” não parece rotoscopia, mas efeito de filtro de algum software. Isso “me tirou” do filme. É imagem real. E quando aparece o gato preto (que vive nos arredores do prédio onde se passa boa parte da história), há uma “briga”, pois o gato foi animado, não muito bem, em 3D.
Em termos de “ortodoxia” sobre o uso da animação para se contar certas histórias, realmente não há nada que “justifique” o uso da rotoscopia ou qualquer outra técnica animada, ao invés de live-action. Porém o diretor defende a utilização da rotoscopia pois, queria falar de uma realidade do país, mas não tinha como filmar lá, então foi uma boa forma de representar a história, o mais fiel possível à imagem real.


Resumo da ópera:
Mais um dia de filmes que refletem a falta de esperança que impera nos nossos dias.  Em termos de criatividade, não vi nada “maravilhoso”, mas uma tendência a se misturar técnicas. O digital, apesar da aura tecnicista em termos de “máquina”, de visual e técnico, matemático, também carrega “um bocado” de inventividade. A experimentação dessas novas formas de “fazer”, mescladas à forma tradicional, estão em alta.

23 de junho de 2017

Diário Animado - Annecy 2017 - Dia IV


Neste quarto dia no festival, assisti a dois longas-metragens e a sessão de Curtas Perspectivas 2.

Zombillenium

Essa produção belgo-francesa é baseada nos quadrinhos homônimos de Arthur de Pins, é muita boa. Produção impecável: criação do roteiro - tem drama, romance, ação, comédia, além de um pouco de terror -, personagens muito bem concebidos - formas, cores e referência com o mundo real. Os cenários bem modelados de forma que não "brigam" com os personagens, os seja, "realistas" na medida certa. Os efeitos não foram exagerados e a trilha sonora de bom gosto, também ajuda a dar corpo à história.
Não posso contar muito pois certamente deve chegar às telas do cinema... o longa conta a história de um fiscal da prefeitura, que se transforma em zumbi, quando estava dando uma “dura” em um parque de diversões temático, Zombilleniun. O parque é na verdade um reduto de zumbis, vampiros e afins.



A Silent Voice


Este desenho animado também baseado em quadrinho, o mangá do mesmo nome de Yoshitoki Ōima. Com personagens em estilo mangá tradicional - com aqueles olhos bem grandes e "brilhosos" -, é um drama.
Ou melhor, vários dramas decorrentes de um comportamento de bullying sobre uma menina surda. Em um pulo no tempo, os dramas perduram na adolescência, com mais bullyings, tentativas de suicídio, arrependimentos, sentimento de culpa e redenção. Não há nada na história ou na estética da animação que não pudesse ser uma história em live-action. Cenários bem detalhados, como normalmente são as produções japonesas, mas na animação é possível notar algumas falhas. O roteiro poderia ser mais conciso e ter uma história menos longa, o que causa um certo cansaço. Mas é um filme profundamente japonês, onde o dever fala sempre mais alto.


Curtas da Sessão Perspectivas 2

Clair Obscure

Direção: Alan Bidard
País: França
Ano de realização: 2016 
Duração: 4 min 15 s
Técnica(s) utilizada(s): 3D


Animação em preto e branco, com desenhos estilizados e traços largos. É um drama com imagens do personagem que tem um círculo preto do peito, e procura se livrar desse peso. Nessa busca, fundo e figura trocam de cor várias vezes. O filme trata do tema do suicídio, e na cartela final comenta que a cada dez dias, uma pessoa dá fim à vida, na Martinica.

Tiny Big

Direção: Lia Bertels
País: Bélgica
Ano de realização: 2017 
Duração: 5 min 25 s
Técnica(s) utilizada(s): 2D


Animação com personagens e elementos simples. Traço fino, estilizado, com alguns elementos coloridos, outros em preto e branco. É uma sequência de cenas de praia: na areia, pessoas jogando, pegadas sendo apagadas pelas ondas... Aborda a questão mundana do homem, envolvido com coisas sem importância.

Half a Life

Direção: Tamara Shugaolu
País: Egito, EUA, Indonésia, Holanda
Ano de realização: 2017
Duração: 12 min 21 s
Técnica(s) utilizada(s): 2D, live-action, outras


Curta feito em 2D, tipo recorte, mas que mistura imagem real e outras técnicas. Conta a história de um jovem egípcio que vê um rapaz ser espancado pela polícia. Tal fato inicia uma série de mudanças de atitude no rapaz, que se torna mais ativo em lutar por um país melhor. Com cores contrastantes, traços grossos, o filme representa bem a situação de insatisfação e de violência da “Primavera Árabe” no Egito. Animação dura, alguns trechos são melhor animados que outros.

Mammas hår (Cabelo da Mamãe)

Direção: Maja Arnekleiv
País: Noruega
Ano de realização: 2017
Duração: 5 min 27 s
Técnica(s) utilizada(s): Pixilation


Através de pixilation – animação de pessoas – conta-se a história de uma família, cuja mãe teve câncer de mama, quando a diretora (irmã mais velha de quatro meninas) tinha 16 anos. O filme mostra as meninas cortando o cabelo da mãe. Pelas imagens e ao que tudo indica, não é um “pixilation” criado, mas obtido através da escolha de alguns quadros, de um filme da família. Muito corajoso e verdadeiro, é uma história que mostra que, mesmo nos piores momentos, há coisas positivas.

Lupus

Direção: Carlos Gomes Salamanca
País: Colômbia, França
Ano de realização: 2016 
Duração: 8 min 05 s


Técnica(s) utilizada(s): Desenho sobre papel, 2D, Stop motion com massinha, outras
Animação de visual sujo, conta a situação de um vigia que foi morto em um ataque feito por cachorros em Bogotá. Usando desenho – ao que parece, sobre imagens filmadas de câmeras de segurança – e imagens de televisão, manipuladas e “grafitadas”, o diretor passa o clima sinistro da situação, onde se contabilizam 600 mil cachorros vagando pelas periferias de Bogotá.

Roger Ballen’s Theatre of Apparition

Direção: Emma Calder
País: África do Sul, Reino Unido
Ano de realização: 2016
Duração: 5 min
Técnica(s) utilizada(s): 2D, recorte


Animação também sinistra, vizinha do terror. Tudo em preto e branco, com predominância de preto, mostra diversas relações entre seres disformes, em tons de cinza, texturizados, que se comem e fazem sexo. Alguns personagens lembram as formas dos personagens do animador Phil Mulloy.

The Gap

Direção: Patrick Vanderbroeck
País: Bélgica. Holanda
Ano de realização: 2016 
Duração: 14min 41 s
Técnica(s) utilizada(s): 3D


O curta começa com um visual branco, uma planície, e um personagem como um boneco de blocos, todo quadrado, fechando alguns buracos no chão, com pequenos blocos. Assim, o terreno fica todo liso e reto. Mas surge uma bola vermelha que quica no chão, e descolando blocos quadrados e criando mais buracos. A história é essa. A proposta é interessante, e pode-se imaginar diversas situações da vida real que poderiam ser representadas, metaforicamente, pelo curta. Mas ele é longo demais, o que faz com que ele perca a força. Mas foi bem animado.

Nos faltan

Direção: Emílio Ramos, Lúcia Gája
País: México
Ano de realização: 2016 
Duração: 4 min 20 s
Técnica(s) utilizada(s): 2D, 3D, live-action, outras


O curta fala do desaparecimento de 43 estudantes em Iguala, no México, em 2014. Pelo próprio motivo, também tem um visual sinistro com imagens do subsolo, escuras, e de campo, que dão a impressão de um grande motion graphic.

Hucho Hucho

Direção: Juan Carve
País: Uruguai
Ano de realização: 2016 
Duração: 5 min 17 s
Técnica(s) utilizada(s): Desenho sobre papel, 2D


Animação minimalista, conta através de desenhos com manchas (sem contornos), a história de um menino e seu avô (J), que lhe conta a história de um peixe que volta ao lugar onde nasceu. Com um visual que lembra “O Menino e o Mundo” (Alê Abreu, 2014), faz uma metáfora com o esquecimento e a vida.

Maacher Jhol – Peixe ao Curry

Direção: Abhishek Verna
País: Índia
Ano de realização: 2017 
Duração: 12 min 04 s
Técnica(s) utilizada(s): Desenho sobre papel, 2D


Com desenho arredondado de traços pretos grossos sobre fundo bege, o filme mostra a relação de um jovem indiano que quer contar à família que não quer casamentos arranjados, pois é homossexual. Para facilitar o seu objetivo, Lalit cozinha o prato preferido do pai e o convida para jantar. A animação com humor sutil, mostra nos detalhes, a situação do rapaz para conseguir o seu objetivo.

Panorama do dia
Definitivamente, no quarto dia do Festival é possível afirmar que de uma maneira geral, há uma depressão geral. Os filmes não são “pra cima”. A maioria é introspectivo, e muitos têm um perfil documental. Sem sombra de dúvida, para mim, a grande surpresa foi Zombillenium, porque não esperava muito dele. Tenho “medo” de adaptações, mas a produção foi muito bem, e o filme tem tudo para ser um sucesso. E também em termos de “ânimo” em relação às outras produções do dia. Apesar dos personagens serem múmias, zumbis, a história é tem um viés mais positivo, mais otimista, afinal o “herói” é o herói e alcança uma forma de happy end.

22 de junho de 2017

Diário Animado - Annecy 2017 - Dia III

No terceiro dia de exibição de animações em Annecy, assisti a dois longas-metragens e uma sessão de curtas.

Animal Crackers

Direção : Tony Bancroft, Scott Christian Sava, Jaime Maestro
País : EUA, Espanha, China
Ano de produção: 2017
Duração : 01 h 34 mn 27 s
Técnica(s) utilizada(s): 3D

Este longa em 3D conta a história de uma família de circo. O irmão mais velho, Horatio é ambicioso (quer dinheiro e fama), enquanto o mais novo, Bufalo Bob, é mais emocionalmente ligado às coisas do circo. Um dia uma bela jovem, Talia, vem fazer parte da trupe, através da cigana Esmeralda. A jovem se apaixona por Bob, apesar das investidas de Horatio, e eles acabam se casando. Esmeralda dá um presente ao casal: uma caixa de biscoitos com formas de animais, e diz que eles são mágicos.
Há um salto de tempo em que aparece o sobrinho dos Huntingtons, Owen, no circo, conhecendo Zoe, ainda criança.

Eles crescem e também se casam, mas com a promessa do rapaz para o pai de Zoe, de que ele vai largar o circo e trabalhar em sua fábrica de comida para cães.
(Essa parte é um pouco confusa... Os personagens de Bob, tio mais novo, e do sobrinho, Owen, são muito parecidos. As elipses de tempo também não são muito bem pontuadas, então ao longo do filme é que se vai entendendo quem é quem). 

De novo há um outro pulo de tempo onde o casal, Owen e Zoe, já tem uma filha, mas ele ainda trabalha com o sogro e eles não se entendem muito bem. O rapaz é provador dos biscoitos para cachorro. Não dá para culpá-lo por não estar muito feliz.
É quando o seu tio, Horatio, por acidente põe fogo em parte do circo. Isso causa a morte de seu irmão e da cunhada.

Na cerimônia de despedida toda a família se encontra e acontece uma briga generalizada pois Horatio quer comandar o circo, mas todos os circenses querem que Owen assuma a direção. Ele se esquiva, porém recebe do palhaço Chesterfield, a caixa com biscoitos mágicos que os tios que o criaram receberam de presente de casamento, e os ajudou no sucesso do circo.
Bom daí acontece uma série de situações engraçadas de perseguição e de sabotagem na fábrica de biscoitos, com ótima utilização da linguagem da animação para gags. Apesar da pouca clareza inicial do roteiro, depois o filme ganha força e segue bem. É divertido, mais voltado para a família e crianças, com estética 3D cartoon, tão bem utilizada pela Pixar.

Loving Vincent

Direção : Dorota Kobiela, Hugh Welchman
País : Polônia, Reino Unido
Ano de produção: 2017
Duração : 01 h 34 mn 29 s
Técnica(s) utilizada(s): pintura sobre tela

Longa de animação em pintura óleo sobre tela que é encantador. Não somente pelo visual, mas também pela história. Ele parte do momento posterior a morte de Van Gogh, com as pessoas que conviveram com ele, e que ele em vida, retratou em seus quadros. Assim, é possível conhecer detalhes de sua morte, assim como conhecer também um pouco mais sobre o próprio pintor.

Tudo começa com uma carta que deve ser entregue a Theo, irmão de Vincent, que o carteiro pede a seu filho para ir entregá-la mesmo depois da morte de Van Gogh. Ele então vai à procura de Theo, mas descobre que ele também morreu. Em contato com pessoas que conviveram os últimos dias do pintor, fica com dúvidas se Van Gogh se matou mesmo, ou não.

Com um roteiro bem construído, o filme prende, criando suspense, mas não chega a dar uma resposta definitiva à dúvida sobre o suicídio. A não ser a própria certeza de Van Gogh: ele não esperava glória, mas amava pintar, acima de tudo.

Como técnica é um filme maravilhoso. A pintura a óleo, baseada nos quadros do pintor dá um show à parte no filme. É lindo ver as pincelas flamejantes, que me fizeram lembrar de outro pintor, El Greco.
Há corte entre as sequências, mas muitas passagens são feitas através da pintura o que transforma as elipses de tempo em ações visíveis.

A única ressalva que percebi foi a largura das pinceladas do fundo, das paisagens, baseadas nas obras, serem em muitos casos mais longas e espessas que as dos personagens. De acordo com a perspectiva, o que vemos menor, é porque está longe, então, o efeito contrário na imagem cria um ruído.

Ainda falando sobre o visual do filme, funcionou muito bem a escolha da estética das pinturas de Van Gogh, para retratar a realidade da história, enquanto para mostrar as lembranças dos personagens, sobre o pintor, foi usada uma pintura em tons de cinza, bem naturalista, como uma imagem fotográfica. Todo o filme teve uma base de rotoscopia, onde as ações são filmadas com atores e depois, animadas sobre o material filmado. Porém tal fato não desmerece o trabalho realizado.
De qualquer maneira é sem dúvida belíssimo filme e um grande candidato na competição.

Sessão 3 de Curtas-metragens

Aenigma


Direção : Antonios Ntoussias, Aris Fatouros
País : Grécia
Ano de produção: 2016
Duração : 10 mn 12 s
Técnica(s) utilizada(s): 3D

Animação em 3D que usa e aproveita bem os recursos da técnica criando um ambiente surrealista. Baseada nas pinturas de Theodoros Pantaleon, aborda a questão do feminino, da repressão, da luta contra o status quo, e mesmo a questão do corpo feminino, de forma metafórica. Muito boa.
Essa projeção foi em 3D estereoscópico.

Ossa

Direção : Dario Imbrogno
País : Itália
Ano de produção: 2016
Duração : 03 mn 55 s
Técnica(s) utilizada(s): Stop motion

Uma das três animações que mostra o fora de quadro, ou seja as câmeras e equipamentos do fazer, do set de uma animação Stop motion. Também aborda a repressão à mulher.
Começa com uma estrutura de boneca de stop motion caída e quebrada, mas presa pela cintura por um fio, ligado a um apoio no cenário.
A história "volta atrás" e vê-se a boneca se debatendo com vários elementos, inclusive com as câmeras e spots de luz, para sair do ambiente. Animação e roteiro inteligentes, e com a duração certa.

Min Börda

Direção : Niki Lindroth Von Bahr
País : Suéciaa
Ano de produção: 2016
Duração : 14 mn 45 s
Técnica(s) utilizada(s): Stop motion: de objetos, massinha e outras
Animação fala sobre solidão e a persistência de forma cômica e musical. Em Stop motion com bonecos antropomorfizados, ela apresenta cinco ambientes internos - um hotel (com peixes), um fast-food (com ratinhos) um call center de uma empresa de seguros (com macacos), um supermercado (um cachorro) e um quarto de hotel (com peixe). Cada grupo canta e dança como numa sucessão emocional - solidão, estímulo e persistência.
Muito bem animados, personagens e ambientes foram bem confeccionados. Se a parte do call center fosse mais curta, a animação teria mais força. Mas é um bom trabalho.

Negative Space


Direção : Max Porter, Ru Kuwahata
País : França
Ano de produção: 2017
Duração : 05 mn 30 s
Técnica(s) utilizada(s): Stop motion: com objetos e bonecos

Conta a relação entre pai e filho através da metodologia na arrumação de malas para viagem. Stop motion de curta duração, mas extremamente inteligente no objetivo do roteiro. É uma comédia.

I Want Pluto to Be a Planet Again


Direção: Vladimir Mavounia-Kouka, Marie Amachoukeli
País : França
Ano de produção: 2016
Duração : 11 min 42 s
Técnica(s) utilizada(s): 2D

Animação em P&B faz uma crítica sobre a substituição de partes humanas por robóticas.
Para reconquistar a jovem amada - meio robô (com formas geométricas) depois de um acidente – um rapaz consegue ser o premiado para uma cirurgia do mesmo gênero para "se atualizar". Apesar da boa proposta, não conquista.

Tühi Ruum



Direção : Ülo Pikkov
País : Estônia
Ano de produção: 2016
Duração : 10 mn 45 s
Técnica(s) utilizada(s): Stop motion com bonecos

A animação começa com um grande plano de uma grande mesa com móveis em miniatura (como uma casa de bonecas), e as câmeras e luzes usadas na animação. Fixando em um dos armários, vê-se as portas se abrirem e sair de lá uma boneca, uma menina de seus 9 anos. Ela anda pelo cenário e mexe nas coisas de forma curiosa, como que conhecendo ou relembrando. Até que acontece uma grande explosão.

Animação bem-feita, intimista, criativa e forte - como a maioria do Leste Europeu. Sem falas, ela vai envolvendo pois há muitos detalhes em cena. E espera-se saber quem é aquela menina. Baseado em uma história real, o que dá mais foça à animação.

Casino



Direção : Steven Woloshen
País : Canada
Ano de produção: 2016
Duração : 03 mn 58 s
Técnica(s) utilizada(s): Desenho sobre película

Animação alegre, colorida de pintura diretamente sobre a película. É impossível não lembrar de Norman McLaren! E isso sem qualquer conotação pejorativa para o autor. Super bem sincronizado, com um jazz muito bom (!), essa animação não narrativa tem um o ritmo e a duração no ponto certo.

After All

Direção : Michael Cusack
País : Australie
Ano de produção: 2016
Duração : 13 mn 16 s
Técnica(s) utilizada(s): Stop motion com bonecos

Outra animação que começa mostrando o set de animação.
Mostra um personagem masculino de meia idade guardando as coisas da casa em caixas. Conforme ele pega nos objetos, lembra de sua mãe, e entende-se que ela já morreu. A realidade das feições dos personagens (bem naturalista), suas expressões, a dureza do tema, e os detalhes do cenário, criam uma atmosfera no filme, que “pega” o público. As passagens para as cenas das lembranças, muitas vezes acontecem com o movimento de câmera, que já enquadra a mãe fazendo seus comentários diretos, perspicazes e até mesmo frios, sobre a sua própria condição de doente. O que também cria momentos cômicos. Um ótimo roteiro.

Strange Fish

Direção : Steven Subotnick
País : EUA
Ano de produção: 2017
Duração : 03 mn 42 s
Técnica(s) utilizada(s): Desenho sobre papel, 2D
Esta animação não narrativa, começa com rabisco em lápis que se movem. Até começarem a se formar imagens, entre elas um peixe. Ao final, a tela aparece com vários espaços como um tabuleiro de xadrez, ocupados por rabiscos, peixe e outras formas. Sonoramente é possível identificar sons de água corrente, de rádio e de ruído diversos. No início, lembra o Free Radicals (1959), de Len Lye, mas talvez, exatamente por isso, pessoalmente, ela não me atraiu, e a trilha sonora não ajudou na conquista – ao contrário do trabalho de Len Lye.

Resumo das exibições:
Foi uma das melhores sessões que assisti. Mostra a diversidade de propostas e execução de técnicas, e como “velhas” formas podem ser revisadas. Não foi uma sessão “leve”, repleta de comédias, mas é também um reflexo do momento em que se vive.

Porém, enquanto obras de animação, no geral foram de alto nível técnico, artístico e de roteiro.

21 de junho de 2017

Diário Animado - Annecy 2017 - Dia II



Antes de começar a falar dos filmes, vou comentar e contar sobre algumas coisas até para entenderem mais sobre o Festival. Ele é muito grande, no sentido de muitas sessões e de vários tipos. Competitivas (5) e não competitivas (6), retrospectivas, sessão do país convidado (homenageado, este ano é a China), sessões ao ar livre, entre outras (6), sem falar nas sessões voltadas para o Mifa, o mercado de animação... sessões sobre projetos de animação, produções que vão para as TVs, master class, making off, etc...

É humana e cronologicamente impossível ver tudo em sete dias. Então eu optei por ver todas as sessões competitivas de longas e curtas-metragens. Os locais são um pouco distantes uns dos outros de 10 a 40 min, e é preciso chegar com pelo menos 30min de antecedência, para pegar um lugar razoável nas salas de exibição. Dez minutos antes de começar, a reserva que você fez on-line, através da credencial – comprada, de jornalista, negócios, participante, convidado, etc – , expira, e qualquer outra pessoa interessada pode entrar. Há uma fila só para isso.

Então não é muito fácil montar um horário satisfatório. Porém, eu ainda consegui encaixar mais as duas sessões de curtas-metregens “Perspectivas”, uma de curtas-metragens “Off-Limits”, e uma de longa-metragem fora de competição (que comentei ontem), e uma sessão de Annecy Classics. No total são 19 sessões, sempre com mais de uma hora, mesmo as de curtas.

Seguindo então meu diário, no segundo dia de exibição de animações em Annecy, assisti a dois longas-metragens: 

Big Fish & Begonia 


Diretores: Xuan (Tidus) LIANG, Chun (Breath) ZHANG
País: China
Ano de produção: 2016
Duração: 01 h 45 min
Técnica: Desenho sobre papel, 2D, 3D, pintura sobre vidro, outras

O filme conta uma história de magia, de que todo ser humano tem uma alma de peixe. Em um mundo “paralelo” onde seres fantásticos e outros aparentemente humanos têm poderes de X-Men. Nele há um rito de passagem para os jovens que se transformam em grandes peixes, que vão para o mundo dos humanos, viver nos mares, e depois retornam ao seu mundo. Só que a protagonista a jovem, Chun, se envolve em uma rede de pesca durante a sua aventura como peixe. Kun, um humano que a vê presa, vai salvá-la, mas perde a vida. Rompendo as regras que separam os dois mundos, Chun não se conforma com a morte de Kun, que deixa a irmãzinha desamparada. Ela então, ao voltar para o seu mundo, troca metade de sua vida para conseguir resgatar Kun. Assim, este revive em um corpo de peixe, que ela tem que cuidar até que cresça o suficiente para sua alma encarnar no seu corpo humano. Assim começa a história de amor, reparação e sacrifício.

Big Fish & Begonia é uma produção bem cuidada. Bem colorido, o filme trabalha com 2d e 3d de forma extremamente inteligente. Não se percebe qualquer ruído entre as duas técnicas  – um choque visual, de que algo não encaixou muito bem.

Como a grande maioria das produções orientais, para nós ocidentais, o filme parece ser um pouco longo sem necessidade. O ritmo é diferente. Os grandes planos, as inversões de câmera com imagens do céu, a partir do mar, que lembram outro filme, só que de live-action, A Vida de Pi (2012, Ang Lee).

Apesar de sua estética ser a de anime, como tradicionalmente são as animações japonesas, isso não é admitido pelos diretores que comentam que utilizaram várias referências culturais chinesas. Mas tal semelhança não desmerece o filme, o contrário, particularmente acho que favorece pois é uma estética bem aceita e com um público numeroso.


Lou Over the Wall 


Diretor: Masaaki YUASA
País: Japão
Ano de produção: 2017
Duração: 01 h 52 min
Técnica: 2D Computer

Kai é um rapaz solitário que vi com o pai e o avô, em uma pequena cidade que vive da pesca. Ele gosta de música, mas é arredio. O pai cobra seu empenho na escola, seus colegas, para que ele faça parte de uma banda, porém ele mesmo só curte fazer sons com seu laptop. Até que em um momento ele acaba cedendo aos colegas e topa encontrá-los para tocarem. Aí é que surge uma pequena sereia. Como uma criança, ela é muito alegre e que ama o som das músicas, pois suas nadadeiras se transformam em pernas e pés, e ela não para de dançar.

É um filme voltado para o público mais jovem. Colorido e movimentado, em termos de roteiro é um pouco confuso. Há momentos dramáticos e outros de puro videoclipe! E é engraçado exatamente por esses contrastes. Não apresenta aquele cuidado e detalhamento dos estúdios Ghibli, mas esse despojamento também se torna visualmente interessante. A realização de certos movimentos e metamorfoses é mais distorcida, assim como os momentos de lembrança dos personagens. Estes parecem desenhos de criança, áreas de manchas de cores vibrantes e sem contornos.  Diferente do filme anterior, Lou Over the Wall é menos ambicioso, enquanto história, mas também apresenta como elemento principal o peixe.

Aliás, percebe-se que é o ano da China, mas também é do peixe, em Annecy 2017!

Logo em seguida, assisti a sessão 1 de curtas competitivos com os seguintes filmes:


Black Barbie

Direção : Comfort ARTHUR
País : Gana
Ano de produção: 2016
Duração: 03 min 36 s
Técnica: 2D

Curta ganense, e que apesar do nome, é dirigido por uma mulher. Com um visual, que podemos chamar de naïf, Confort conta suas próprias experiências enquanto mulher negra, que precisa viver (no sentido de obrigação, não tem como fugir) com um modelo de beleza estereotipado, e no qual não se encaixa.


SAMT (Silence)



Direção : Chadi AOUN
País : Líbano
Ano de produção: 2016
Duração: 15 min 22 s
Técnica: 2D e outras técnicas

O curta conta a história de um homem “meio” gato (os olhos e o comportamento são de gato), que vive em uma cidade censurada, vigiada e em escombros. Reparem que o filme é libanês. Ele vive só, um pouco entediado, deprimido. Até que vê uma dançarina, dançando na rua, que é logo recolhida pelas forças de segurança do local. A dança mexe com ele. Um outro dia à noite, ele encontra um bailarino, dançando no alto de um prédio. Dançando, este o “seduz” para dançar também (“rola um clima” também). Bem não vou contar o resto. A animação é em estilo manga, e um protesto contra as ditaduras, mas também … uma crítica contra as invasões americanas no Oriente Médio – é preciso ver o filme com atenção.

Inhibitum


L'ATELIER COLLECTIF
País : Belgique
Ano de produção: 2016
Duração: 08 min 12 s
Técnica: Techniques diverses

Essa animação coletiva belga é muito boa. “Inhibitum” quer dizer “proibido”, e fala de diversos problemas atuais, que desde o final do século XIX poderiam ter sido evitados, mas não o foram por interesses econômicos. Cada história foi animada com uma técnica diferente, o que torna o curta, como um todo, mais rico e interessante. Essa vale a pena assistir mesmo!


Corp.


Pablo POLLEDRI
País : Argentina
Ano de produção: 2016
Duração: 09 min
Técnica: 2D

Uma animação “de los hermanos” que começa simples, linha preta sobre branco, e termina em 3D, e de uma contundência admirável. Quase um infográfico animado, ela conta como um pequeno negócio se torna uma holding! E conta mesmo, com requintes de realidade impressionantes.

Pela simplicidade do desenho, “lembra” os do Don Hertzfeldt. Uma ótima animação, com todos as características de um projeto bem estruturado com um roteiro crítico impecável.

Amor, nuestra prision


Direção : Carolina CORRAL
País : México
Ano de produção: 2016
Duração: 05 min 50 s
Técnica: Desenho sobre papel, recorte, 2D, outras

Curta depoimento, relata a relação de mulher que concordam em ter um casamento com prisioneiros condenados. A situação de abandono, violência e de menos valia fica marcada com uma animação de visual sujo, contrastante e com elementos da vida real. Depoimentos feitos com vozes femininas, ancoram as histórias com as imagens. O assunto não é “fofinho”. Quem acha que animação é coisa de criança, não sabe de nada…


Ethnophobia



Direção : Joan ZHONGA
País : Albânia e Grécia
Ano de produção: 2016
Duração: 14 min 18 s
Técnica: Stop motion com massinha

Conta uma história já batida, mas que infelizmente, nunca sai de “moda”. Através de personagens de formas iguais, bem concebidos, divididos em reinos distintos, competem pela posse de uma caça. Mas não aceitam bem os que tem cores diferentes das deles – azul, amarelo e vermelho. De forma cômica, mas bem representativa, tentam de maneiras diversa transformar os “outros coloridos” em azul, amarelo e vermelho… mas é um fracasso.
Bem animado, aproveitando as características da massinha, o filme diverte e passa a mensagem.

The Ultimate Guide to Inspiration



Direção : Daniela URIBE, Francisco MARQUEZ
País : Espanha, Venezuela
Ano de produção: 2016
Duração: 02 mn 41 s
Técnica: 2D

Com desenhos que lembram as ilustrações de uma cor das propagandas americanas da década de 1950, a animação aborda filosoficamente – com narração em voz de off – a inspiração. A estética dos desenhos vai mudando ao longo do filme – tornam-se mais simples, as vezes coloridas, outras só ficam no traço. É bem animado, mas não é uma produção que “prenda” a atenção.


Frontera



Direção : Fabián GUAMANÍ ALDAZ
País : Equador
Ano de produção: 2017
Duração: 07 min 19 s
Técnica: 2D

Animação de um outro vizinho nosso, Frontera conta a situação que acontece em região de fronteira entre países que enfrentam estados de revolução ou guerra.

Os personagens têm um desenho minimalista, mas passam a emoção. Animação é econômica, quero dizer, ele é pouco animado. Foram bem aproveitados o movimento de câmera, os cortes e a variação de planos.


Slovo (Farewell)



Leon VIDMAR
País : Eslovênia
Ano de produção: 2016
Duração: 05 min 51 s
Técnica: Marionnettes

Filme eslovaco com os personagens, os bonecos, impressionantemente bem feitos – a tela grande não esconde nada! Super bem animado, conta a história de um rapaz que relembra a sua infância quando pescava com o avô (olha o peixe de novo!). Exatamente por isso o roteiro foi construído intercalando essas imagens, do presente e do passado, com passagens utilizando animação e efeitos que funcionam muito bem.


Yaman



Direção : Amer ALBARZAWI
País : Síria
Ano de produção: 2016
Duração: 04 min 01 s
Técnica: Stop motion com massinha, Pixilation

Filme de impacto. Conta a história de um órfão sírio, cujos pais foram mortos na guerra. É o próprio menino que faz o personagem. Através do stop motion vai sendo mostrado como a vida do menino (Yaman) e como e porque se modificou.


It Is My Fault



Direção : Liu SHA
País : China
Ano de produção: 2016
Duração: 04 min 50 s
Técnica: 3D

O curta conta a história de uma jovem deprimida e triste. A estética e os movimentos desta animação lembram os games e as animações 3D dos anos 90, no início da informatização do setor. Com cores saturadas e um som techno, (sinceramente, pessoalmente irritante), o filme passa o desespero da personagem – mas não a sua tristeza.