21 de maio de 2018

Thundercats e o esvaziamento do debate pelo conflito de gerações


Nunca me esqueço do quanto ouvi nas décadas de 80 e 90, quando meus pais passavam pela TV enquanto eu assistia calmo e tranquilamente a um desenho animado, uma severa crítica a péssima qualidade daqueles desenhos animados que eram produzidos. Desenhos parados! sem movimento! Não era como na época deles que os desenhos respiravam.

Talvez ali, sem querer, meus pais começavam a plantar na minha cabeça essa semente investigativa que tenho sobre o universo da animação. E praticamente uns 20 anos depois eu entendia que eles se referiam aos desenhos clássicos das décadas de 30 e 40, quando o reinava o famoso dodecálogo de Thomas e Johnson nos estúdios Disney e seus modelos copiados para os demais estúdios de animação norte americanos. Ou seja, a animação como a ilusão da vida, o primor dos movimentos produzidos quadro a quadro naquilo que iremos chamar de Full Animation.

O problema é que, a partir dos anos 1950, não valia mais a pena para as grandes produtoras investirem em animação para o cinema (Curtas Disney, Tom e Jerry, Looney Tunes foram originalmente criados para a telona) e a TV pedia um método de produção mais ágil e mais barato. Restava então apelar ao método UPA de animação que, apesar de ser uma proposta artística, era de fato mais economicamente viável. Começam a pipocar as animações limitadas com personagens mais parados, criados com formas mais geometrizadas, tudo para agilizar a produção. Foram 10 anos de trevas até resurgir a dupla Hanna-Barbera que sabiamente saberia pegar o que aprenderam na escola antiga e adaptar aos novos tempos. Mesmo assim aquela geração que curtiu Tom e Jerry no cinema fez cara feia a novidade.

Curiosamente hoje muitos comentam do Tom e Jerry das décadas de 40, 50 que foram animados por Hanna, Barbera, Tex Avery, Fred Quimby e Chucky Jones e sempre comparando com sua produção para a TV que passaram ainda pela MGM e pelos estúdios Hanna Barbera se referindo aos mais atuais como o Tom e Jerry "Toscão" e aos antigos como Tom e Jerry "de verdade" e isso independe das gerações.

Agora a internet entra numa nova briga colocando, na minha opinião de forma equívocada, aqueles que criticam o novo desenho dos Thundercats a uma questão meramente geracional. E defendendo com unhas e dentes que esta não deve ser uma preocupação de quem não é parte do público alvo da série. Porque é fácil provar a defesa de uma tese classificando e rotulando as demais de forma pejorativa. E assim os robozinhos algorítmicos do Face vão alimentando cada vez mais essas bolhas sociais.

Em seus Escritos Corsários, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini no seu tratado pedagógico intitulado "Gennariello: a linguagem pedagógica das coisas" aponta para a questão geracional deixando claro que muitas vezes elas tem uma certa dificuldade de diálogo.

Agora não posso te ensinar as 'coisas' que me educaram, e você não pode ensinar as
'coisas' que estão te educando. Não podemos ensiná-las um ao outro pela simples razão
de que sua natureza não se limitou a mudar algumas das suas qualidades, mas mudou
radicalmente sua totalidade” (Pasolini, 1990, p.132)

E assim, tendo introduzido esse assunto, deixando claro que é fácil rotular as coisas ao "no meu tempo era melhor" coloco aquilo que parece ser uma preocupação legítima de uma geração que viu os Thundercats nas décadas de 80 e 90: a tendência a descaracterização dos personagens. Não é apenas uma questão estética. Trata-se de uma alteração em nome de uma modernização. Em alguns funciona perfeitamente. A passagem dos personagens do Universo Marvel e DC ao longo das décadas (tirando novos 52 por favor :D ) e agora o caso Marvel para o Cinema é perfeita nesse aspecto. Muito dos personagens foi mudado, no entando muito de sua essência principal permaneceu.

No entanto, na DC temos um caso que chama atenção que são os Jovens Titãs em Ação. Ali não se tratou apenas de fazer os personagens mais fofos. Tornaram os meninos totalmente Non Sense. E não é o nonsense que o Keith Giffen e o Kevin Maguire fizeram com a Liga nos quadrinhos nos anos 1980. É um esvaziamento total de sentido dos personagens. Virou uma mistura de Sitcom de super heróis onde o que menos importa é o cumprimento das missões e a jornada de cada um. Pastelão puro e simples. Nem mesmo o Freakazoid de Spilberg era assim. Thundercats Roar parece seguir mais essa linha do que Steven Universe, Hora da Aventura, Apenas um Show ou Irmão do Jorel.

Ah, mas isso não são os Thundercats da sua geração! É hora de entender que estes são os da nova! Precisamos Crescer. 

Apenas pare amigo. Minha geração cresceu vendo desenhos que tinham como objetivo o mero consumo de bonecos: He-Man, She-Ra, Transformers, Comandos em Ação. Esse comportamento teve suas consequências. Só que nessa época não se tinha preocupação alguma dessa influência sobre o público infantil. Hoje essa discussão tem amadurecido. Então não é hora de deixar soltar a corda porque a geração mais velha hoje quer participar e discutir o que será produzido para as gerações futuras. E Sim! teremos dificuldades em achar um ponto em comum. Pasolini já previu isso como eu disse acima. Mas as redes são um espaço onde devemos apreciar e colocar o debate das ideias e aprender a não rotular o pensamento oposto.

É interessante começar a reflexão sobre personagens terem seu conteúdo esvaziado. Não é só pensar nas nuances de roteiro ou design das personagens. Teen Titans, Mickey e alguns outros passaram por essa mudança que parece começar a ser uma tendência. Por isso vale ligar um sinal amarelo (não para censurar mas para discutir e debater). Aprendamos a crescer juntos nesse debate ao invés de reduzir tudo a "o meu é mais legal que o seu" e "você está fora de moda".

O que de fato significa essa tendência? Qual é verdadeiramente a releitura desses personagens? Porque isso gera mais audiência? Do que esse esvaziamento de sentido de personagens consagrados é reflexo exatamente? E que outros reflexos serão gerados desse tipo (se é que o serão)? Essas são apenas algumas perguntas que devem ser levadas em consideração. Mas é claro, para isso, antes de pensar a série, precisamos ver. Até aqui tudo que se falou de Thundercats Roar é mera especulação. Pode ser que toda essa discussão seja em vão e seja apenas o caso estético.

Mas podemos aproveitar o debate gerado e falar dentro do que já temos como Teen Titans e os novos curtas do Mickey! Apenas não paremos no rótulo e sigamos em frente!

1 de agosto de 2017

Animação é só para crianças? NÃO! NÃO É!

Festa da Salsicha - A nova vilã das crianças?

Essa era uma cena recorrente, mas no ano de 2004, um festival de animação tinha em sua programação um curta chamado Engolervilha, um curta coletivo com cenas escatologicas e/ou bizarras de 15 a 30 segundos cada. E quero dizer escatologicas mesmo! Desde uma chapeuzinho vermelho chapada até as aventuras sexuais sórdidas entre um garotinho e uma galinha. 

Vovozinha do pó em Engolervilha

Pois bem, na fila dessa sessão existia, além dos fãs de animação, aqueles pais andando com seus filhos para mais uma sessão de cinema. Um dos autores do curta que ali estava, ciente do conteúdo do filme, avisa aos pais que naquela sessão tinha um filme não recomendado para aquelas crianças. Ao que o Pai responde:

- Nãh! sem problema! É desenho Animado!

Mickey forçando um beijo em Minnie em Plane Crazy
Nem preciso explicar que foi uma debandada de crianças com seus pais da sessão reclamando do absurdo que era uma animação daquelas e questionamentos sobre "Que tipo de doente faz esse tipo de coisa para as crianças?"

Então! Eis um dado importante: doente ou não, o curta Engolervilha não tinha sido feito para crianças. Era uma animação para o público adulto! E desde quando animação são para adultos? Bem. Praticamente desde a lanterna mágica do século XVII e dos brinquedos óticos do século XIX até chegar às primeiras animações para o cinema. Quem ia ver os curtas de Mickey Mouse (que em seu primeiro curta Plane Crazy arranca a força um beijo da Minnie em pleno ar e no segundo curta, Gallopin Gaucho bebe uma cerveja enquanto puxa Minnie pela cintura para dançar um tango) eram adultos! 

Donald Nazista em Der Fueher´s Face
Durante a Guerra, animadores como Tex Avery, Chucky Jones e até os estúdios Disney preparavam animações panfletárias contra o Nazismo e personagens para treinamento e diversão dos soldados!

Todas animações para adultos!

Na década de 60, os Flintstones estreavam na TV em horário nobre antecipado com um comercial onde Fred e Barney fumavam os Gigarros Winston. Absurdo? um incentivo às crianças ao fumo? nada Disso! Os Flintstones passavam no horário nobre porque era um programa para Adultos. Assim como hoje são os Simpsons, South Park, Uma Familia da Pesada, American Dad e tantos outros filmes e séries pra TV! Sem contar na produção de Animações para o cinema como Akira, Paprika, Wood & Stock: Sexo, óregano e Rock and Roll, Ghost in the Shell e até mesmo Shrek que só escapa porque as piadinhas adultas são um tanto discretas, mas estão ali.

Flintstones - Oferecimento de Cigarros Winston
Mas ainda assim, em 2017, as pessoas se surpreendem com uma animação onde um grupo de alimentos promovem uma orgia dentro de uma geladeira alegando que "não é possível que exponham nossas crianças a esse tipo de coisa."

E eu concordo! É um absurdo que exponham as crianças a isso! Mas, o filme Festa da Salsicha, que tem aparecido nas mensagens de WhatsApp e postagens no Facebook como a nova ameaça infantil tem classificação indicativa para 16 anos! Isso está avisado antes da exibição do filme e no painel de aviso dos canais da TV quando você passa!

"Ah mas eu não tava em casa e meu filho ligou na HBO!" Quaquer aparelho de TV por assinatura tem a opção de bloquear programas com senha de acordo com a classificação indicativa. É o Controle Parental. Basta configurar para que qualquer programa com classificação indicativa acima do que você escolhe seja bloqueado e pronto! A não ser que seu filho tenha a senha, naquele horário o programa estará bloqueado para ele e você pode descansar tranquilo!

Controle Parental - Quem ama bloqueia!
E não adianta denunciar. Por se declararem possuidores de um sistema de controle parental, podendo o adulto responsável bloquear programas não recomendados a seus filhos a qualquer hora, a TV por assinatura não precisa cumprir a vinculação horária como a TV aberta. Então queridos pais entendam que:

1) Nem toda animação é livre para todos os públicos;
2) Vocês tem o dever de saber o que seus filhos estão assistindo;
3) Precisam entender e conhecer as formas e métodos para controle de exibição de programação;
4) Não adianta responsabilizar a emissora. Quem deve cuidar do que seus filhos assistem, navegam e leem são vocês!

Ainda em cima do ítem 1, mesmo quando a programação é livre, ideias as quais vocês discordam podem estar sendo passadas para seus filhos. Por isso é importante estar ciente e deixar o diálogo aberto com a criançada sobre isso.

Então não façam como os pais norte americanos da década de 50. Não deixem a TV como a Babá perfeita para seus pimpolhos, aliás NEM A INTERNET! É necessário atenção às ferramentas necessárias para controlar e bloquear. E estejam prontos para conversar com seus filhos. Cuidar disso não significa invadir o espaço privado deles! mas demonstrar preocupação e carinho com o que eles estão curtindo e vivenciando.

Para que vocês entendam que tipo de conteúdo é exibido para cada classificação indicativa, coloco o quadro explicando tim tim por tim tim! (lembrando que a faixa de horário só é obrigação para a TV Aberta) Então pais, configurem suas TVs imediatamente, mas principalmente, estejam por dentro do que seus filhos assistem!


19 de julho de 2017

Diário Animado - Anima Mundi 2017 - Dia III

No terceiro dia de maratona de curtas metragens, muitas boas surpresas me apareceram.
Brinquedo Novo - Sessão Infantil 1
Foi o caso do curta brasileiro Brinquedo Novo (sessão infantil 1) que representa a visão de um bebê aos poucos perdendo o interesse no seu brinquedo novo. O curta é bem legal e trata o assunto do descarte de forma muito simpática e inteligente.

Caminho de Água para um Peixe - Sessão Infantil 3
Ainda nessa vibe sustentável um outro curta que empolgou principalmente na trilha sonora foi Caminho de Água para um Peixe (Curtas Infantis 3) que conta as aventuras de um garotinho numa vila que tenta salvar um peixe de morrer fora da água. A Direção de arte do curta é primorosa nessa co-produção entre Espanha e Colômbia.

Outro destaque da sessão Infantil 3 é o excelente Sr. Noite tira um dia de folga. A história do Sr noite brincando de escurecer várias coisas, animais e lugares durante o dia. O curta brinca 2D, ação ao Vivo e Stop Motion de objetos e considerei um dos melhores que assisti no festival.
Sr. Noite Tira um dia de Folga - Infantil 3

Falando em Stop Motion. Negative Space (Sessão Curtas 1) tem uma excelente história sobre um jovem rapaz e a relação que estabeleceu com seu pai através do hábito de arrumar as malas. A animação em stop motion super flúida dá um toque especial a este curta Francês.

Negative Space - Sessão Curtas 1
Meli-Metro - Sessão Curtas 11
A França está bem destacada nessa Anima Mundi. muitos dos curtas citados são de lá, assim como Meli-Metro (Sessão Curtas 11). Curta que, como pai de uma menina de um ano e meio, me senti completamente identificado. A história é algo bem corriqueiro e comum. Um pai com sua filha fazendo manha no metrô acaba se tornando o assunto de todos os palpiteiros e entendidos na vida alheia. Todos os perfis estão lá - A pedagoga, o incomodado, a mãe de três filhos, o doutor em psicologia soltando citações... tudo para dizer ao pai como ele deveria conduzir aquela situação com a filha. Pais certamente vão dar uma ótima nota no juri popular.

Mr. Madila - Sessão Curtas 9
O Reino Unido também mandou bem em curtas como o documentário animado (fake) Mr. Madila (Sessão curtas 9) que é uma entrevista do animador com um guru, gênio, faz tudo engraçadissimo. Não saia da sala até o final pois até a leitura dos créditos vai fazer rir bastante.

E a coreia do Sul ficou bem representada também no curta The Wrestler (Sessão curtas 9). Talvez não seja um curta que impressione pela história e nem agrade o público como um todo. Porém a animação e a expressividade dos personagens nessa cena de luta é fantástica com referências a ilustração e pintura coreanos trazendo claramente um destaque do referido país aos outros produtores de animação orientais.

The Wrestler - Sessão Curtas 9
Por último queria destacar o curta chileno Here´s the plan (curtas 10) que trata de uma forma muito delicada o assunto da dicotomia da vida de casados com as conquistas e carreiras individuais. É um curta que faz pensar muito numa sociedade onde a palavra "eu" acaba falando muito mais alto do que "nós" e como essa postura acaba nos isolando e deixando-nos abandonar a nós mesmos. Também entrou no Hall dos meus curtas favoritos desse festival.

Here´s The Plan - Sessão Curtas 10
E assim encerro a rodada entre as sessões competitivas do festival. Um Recorde meu de assistir 18 sessões em 3 dias, (6 horas dentro de uma sala de cinema por dia). Quando você vai se acostumando a frequentar o festival, dias assim se tornam comuns. Mas não acaba aí. Ainda temos papos animados, anima fórum e muitas coisas que vão rolar nos outros dias de anima. Você pode aproveitar e pegar essas dicas já que até domingo essas sessões vão se repetir pelo menos uma vez.

E vamos que vamos!

17 de julho de 2017

Diário Animado - Anima Mundi 2017 - II


Segundo dia de maratona do festival mais animado da América Latina. Mais um dia inteirinho no ODEON no Rio de Janeiro.

Surpresa - Sessão Curtas 7
Deste segundo dia, me surpreendi com a forma gentil que assuntos graves foram tratados de forma bem leve. Um deles foi o curta Supresa (Curtas 7) que é feito em cima de uma gravação real entre uma mãe e sua filha com câncer. O depoimento da menina ia sendo animado a medida que o curta vai evoluindo. Apesar do assunto parecer pesado, a narrativa acontece de forma leve, agradável e muito bonita, tornando esse um dos curtas mais significativos pra mim deste festival.

Outros dois curtas passaram em sessões infantis diferentes e trataram um assunto histórico muito grave de forma bem leve. são os curtas Chika, o Cachorro no Gueto (Infantil 5) e o "quase longa metragem" Férias Muito Muito Grandes (Infantil 7) que trataram da segunda guerra mundial, do nazismo e da perseguição aos Judeus. 
Chika, o Cachorro no Gueto - Sessão Infantil 5
O primeiro é um curta em Stop Motion que fala da relação entre o cachorro Chika e seu dono, um menino Judeus de cinco anos que é ajudado a crescer no Gueto de uma cidade polonesa em plena segunda guerra. A narrativa trata os medos do menino de forma muito delicada, focando mais nos medos e receios do pequeno. 

Férias Muito Muito Grandes - Sessão Infantil 7
No segundo, um filme de 50 minutos o espírito é mais de aventura. Um grupo de crianças vai passar as férias na Normandia no Verão de 39 e acabam ficando lá por mais de cinco anos devido a invasão na França pelo exército alemão. Juntas as crianças formam um grupo que ajuda a resistëncia do vilarejo contra os soldados alemães. O Filme tem técnica mista de 2D com 3D apresentados de forma bem equilibrada que mal dá pra distinguir as técnicas no filme. O Design das personagens tem um traço retrô, num estilo que lembra muito o do quadrinista belga Hergé, criador do Tintin. Apesar de grande, o filme agrada o público e ainda deixa um gosto de "Quero mais" no final. Fica o recado pra diretoria do Festival que queremos ver a continuação ;).

Escapada Espacial - Sessão Infantil 6
Por falar em estilo retrô, três dos curtas brasileiros que vi hoje pegaram muito bem esse espírito. Dois deles remetendo aos games da era dos 8 bits dos anos oitenta e noventa. É o caso de Escapada Espacial (Infantil 6) e A Vocação (Infantil 7). O primeiro fazendo uma referência aos jogos do Estilo Plataforma e o segundo fazendo referências às famosas classes de personagens de jogos de estilo RPG e Estratégia.

O terceiro filme brasileiro que remeteu ao retrô foi o documentário animado Sob o véu da Vida Oceânica (Curtas 5) que fala da vida de um pequeno ser aquático e seu tempo de duração de 6 minutos. O curta tem um timing divertídissimo, animado em 2D com uma clássica referência a animação moderna da década de 50 lembrando o estilo da UPA com personagens mais geometrizados e simplificados.
Sob o véu da vida oceânica - Sessão Curtas  5

Essa influência dos anos 50 da animação 2D da UPA ainda é notada no divertidíssimo Bullet Time (Curtas 7), um faroeste que conta a história entre duas balas em meio a um duelo entre dois Cowboys.

E fechando essa relação de curtas mais divertidos, me impressionei com Our Wonderful Nature - The Common Chameleon (Curtas 8) e não foi pelo 3D bem modelado, do cenário realista ou do roteiro engraçado. Mas por ser um excelente exemplo de como muitas vezes menos pode ser mais. O curta tem apenas uma cena com uma única tomada de câmera com 3 ações distintas. Mesmo não mudando ângulo o filme de 3 minutos diverte e agradou todo o público que assistia a sessão no Odeon.

Bullet Time - Sessão Curtas 7

Our Wonderful Nature - The Common Chameleon - Sessão Curtas 8
Continuo destacando o equilíbrio das sessões do festival. Todas com excelente qualidade. Afinal de contas são 25 de Anima Mundi. Experiência no assunto eles tem e muita. Até mais!

16 de julho de 2017

Diário Animado - Anima Mundi 2017 - I


Mais uma jornada animada que agora completa 25 anos. E depois de tantos anos talvez eu pense em mudar um pouco a forma de redigir esse diário. Ao invés de falar sessão a sessão e seus destaques vou diretamente naqueles curtas que me surpreenderam e se destacaram neste meu primeiro dia de Festival. Fiquem tranquilos que será acompanhado da sessão onde ele está.

Estou com fome de criança - Sessão infantil 4
Confesso que corri para chegar no festival e deixei de almoçar. Por isso estava com fome na primeira sessão. Tão faminto quanto o pequeno Jacaré do curta "Estou com fome de Criança" (Infantil 4) e o fato da animação ter sido produzida com desenhos feitos com sementes e comida só aumentou o apetite.Mas a fome deu um tempo quando suspirava pra ver a qualidade do trabalho do pessoal da UFMG com o curta "Diário de areia" (Infantil 4), uma aventura incrível de uma Guardiã dos sonhos que quer proteger sua irmã dos terríveis pesadelos. A qualidade da direção de arte é impressionante e deu um gosto de "quero mais". Espero que se torne uma série.

Toine - Sessão Infantil 2
E no meio de tantas pérolas também assisti "Toine" (Infantil 4). Uma história de um fazendeiro que tem problemas para administrar sua fazenda por estar com o pé quebrado. A simplicidade do traço e a forma dos personagens geometrizados com poucos elementos de cena são um destaque dessa produção. Simplicidade essa que  também se encontra no curta Aport (Infantil 2). um curta realmente curta que mostra a diversão de pequenos cachorros com uma bola. 

Mas dos filmes infantis do dia, quem me conquistou foi o filme "Dois Bondes" (Infantil 2) que junta Animação 2D com Stop Motion e que também se destaca na concepção dos dois protagonistas. A Forma como eles aparecem bidimensionalizados num espaço tridimensional. Um show de concept art e direção de arte.
Dois Bondes - Sessão Infantil 2
Les Deimoselles d'Ovalie - Sessão Curtas 4

Terminadas as sessões infantis fomos para os filmes pro público um pouco mais velho e aí assisti um excelente curta que junta duas coisas que adoro: Animação 2D e Rugby. Trata-se do curta francês Les Deimoselles d'Ovalie (Curtas 4). Além de tudo o curta é do francês Laurent Kircher, velho conhecido do festival e dos fãs de animação em trabalhos como O Mágico e As Biciletas de Belleville. Os personagens caricatos muito marcantes alinhados a uma animação primorosa e um timing pro humor sensacional (marca registrada deste francês) colocam o curta como um dos favoritos do festival. E no final da sessão é impossível não rir com o curta Brasileiro Macaco Albino:Pimenta (Curtas 4)que conta as desventuras de um fã da iguaria picante.

Revolting Rhymes - Sessão Curtas 6
Nessa maratona animada que foi hoje uma suspeita felizmente não se confirmou. Entre tantos curtas, um filme de meia hora. Quando aparece um filme assim a gente até se prepara que pode vir aqueles curtas arrastaaaaados, cansativos mas que nada! Revolting Rhymes (Curtas 6) é uma excelente história! Uma releitura dos clássicos contos de fada mas misturando todos eles e com uma pegada bem mais adulta. De repente a meia hora passou e eu achei que tinham sido só 5 minutos.

Última Chamada - Sessão Curtas 2
Quando eu achava que depois de tantos filmes ia me cansar veio uma das sessões mais simpáticas do festival (ainda falta mas arrisco dizer que a Curtas 2 deve ser a que mais vai agradar o público em geral). Temos na sessão o Argentino Juan Pablo Zaramella com uma compilação de episódios de "El hombre mas chiquito del mundo" com as dificuldades no dia a dia de um homem com menos de 10 centimetros de altura e o maravilhoso "Ültima Chamada" da portuguesa Sara Barbas que dá aquele tempero especial sobre encontros, desencontros nos nossos relacionamentos. Com um bom roteiro e excelente design das personagens com impressionane apelo, a animação com baixo framerate (poucos quadros por segundo) veio coroar a produção dando um ritmo muito agradável.

Scrambled - Sessão curtas 3
Falando em apelo. Alguém ja imaginou um cubo mágico conquistar o público por sua graça e simpatia? Pois bem... o curta "Scrambled" (Curtas 3) fez isso com maestria e não vou contar mais a respeito disso pra não estragar. Assim como o sensacional final do curta Chickens que dá uma nova leitura sobre o termo "deixaram um bode na sala"(no caso é um elefante mas tudo bem). Aliás... a sessão curtas 3, a última da noite tem uma temática bem feminina.

E esse então foi o primeiro dia com curtas muito bons. As sessões do festival estão bem equilibradas e muito, muito boas. Vale a pena conferir!

15 de julho de 2017

Anima Mundi terá plataforma de vídeos on Demand

Uma das novidades mais legais desses 25 anos de Anima Mundi acabou de ser anunciada na Cerimônia de Abertura do Festival: Vem aí o Anima Mundi On.

Trata-se de um serviço de vídeos on demand que oferecerá parte do acervo desses 25 anos de Festival. Com isso será possível assistir aquele curta metragem que você amou no Anima Mundi e não consegue mais encontrar em lugar algum. 

Segundo César Coelho, um dos diretores do festival, será possível assistir aos curtas separadamente ou em programações montadas pela curadoria do Anima Mundi. O diretor também comentou que o acervo será atualizado aos poucos (Faz sentido. Afinal são 25 anos de Festival né gente?)

O serviço está previsto para começar em novembro mas o site ja está no ar e convidando a quem quiser fazer um pré-cadastro que dá direito a um mês grátis de uso. (Clique aqui para se cadastrar).

Segue o vídeo de apresentação do Anima Mundi On apresentado hoje no festival.

13 de julho de 2017

Vem aí o livro Trajetória do cinema de animação no Brasil

Alegrai-vos animadores! Temos um novo projeto para falar da animação brasileira nesse centenário!

Se trata do livro Trajetória do cinema de animação no Brasil. Um projeto feito por uma animadora chamada Ana Flávia Marcheti que faz uma viagem pelos 100 anos de animação do Brasil mostrando a processo criativo envolvido na produção de diversos curtas: Desde o Kaiser de 1917 até as produções atuais feitas para o Cinema e a TV.



O projeto foi acompanhado por diversos responsáveis da área, revisado e mobilizou todos os animadores, estudantes de animação e fãs da arte animada via crowndfunding e será lançado no próximo dia 18 no durante o Anima Mundi. Para conhecer melhor o projeto entrevistamos a idealizadora Ana Flávia Marcheti. Para conhecer mais sobre o projeto, visite a fan page do livro no Facebook.

Como surgiu a idéia de fazer o livro?
A vontade surgiu quando estava na metade do curso de Design e descobri que existia mercado de animação no Brasil. Foi quando fui a primeira vez no Anima Mundi também, em 2012. Eu sempre quis trabalhar em algo relacionado com animação, fiquei entusiasmada e fui em busca sobre mais informações de produções nacionais. Como estava acostumada a ser bombardeada de livros de artes de grandes estúdios, fui procurar algum livro nesse estilo que abordasse as produções no Brasil e descobri que praticamente não existia. Na época foi difícil conseguir o exemplar de "A experiência Brasileira no Cinema de Animação" do Antonio Moreno, que foi o conteúdo que consegui mais próximo do que estava buscando. Nesse processo descobri que era muito difícil conseguir informações sobre as produções nacionais, pois são dispersas e muitas que circulam são equivocadas. Por isso iniciei uma pesquisa independente e decidi eu mesma criar o livro que estava buscando.


Como é a estrutura dele para apresentar esse panorama de 100 anos?
No começo eu realmente queria fazer uma grande linha do tempo sobre todas as produções existentes, como um catálogo. Mas logo descobri que não ia dar certo, senão o livro seria uma bíblia e não daria para aprofundar de fato nas produções. Então eu decidi fazer um recorte desses 100 anos. Primeiro eu fui datando as produções e organizando-as em uma linha do tempo e dentro de minhas pesquisas separei a animação brasileira em 5 momentos, que são os 5 capítulos do livro: Origem, Um impulso, Experimentando, Expandindo e Contemporâneos. O livro segue em formato de linha do tempo, mas com os marcos, que são os capítulos, e em cada capítulo tem um compilado de produções que correspondem a época destacada.

Como foi a escolha dos curtas para representar esse panorama?
O objetivo do livro é mostrar como foram feitas as produções nacionais, o seu processo criativo, assim como os artbooks dos grandes estúdios. Como expliquei anteriormente o livro é dividido em cinco momentos da história, e em cada momento busquei destacar curtas/longas de diferentes técnicas e produção que conseguissem representar o momento da animação naquela época. Começa com as charges animadas, passa pelos pioneiros, animações de experimentação, comerciais e finaliza com os contemporâneos. Onde cinco diretores de diferentes técnicas e áreas são entrevistados e contam em detalhes sobre suas produções. Os entrevistados são: Marcos Magalhães, Kiko Mistrorigo, Paolo Conti, Alê Abreu e Rosana Urbes.


Como foi a recepção dos animadores entrevistados para o livro?
Todos que entrevistei foram super abertos e me receberam bem. Conheci seus estúdios e processos, foi bem inspirador.

Como foi a recepção do projeto no catarse? Esperavam alcançar esse sucesso todo?
O Catarse era meu "plano c" (risos), pois ele exige muito de quem cria a campanha. Ainda bem que tive ajuda de meu produtor Guto BR que me ajudou nesse processo de publicação independente. Eu acreditava que poderia dar certo, mas tinha um pouco de medo de morrer na praia. É um projeto que demorou mais de 3 anos para ficar pronto e o ano de lançamento tinha que ser esse, para comemorar o centenário. Eu esperava que as pessoas iam se surpreender com o projeto, mas não que iria ter todo esse sucesso, fico feliz que teve boa recepção e espero que todos gostem do livro. Fiz o livro que eu queria para estudo e referência sobre essa linda área: animação.


Você tem projetos de outros livros do gênero?
Quando comecei a luta para viabilizar a publicação e entrei mais em contato com a área de animação, sempre escutei que precisavam de mais mulheres animadoras na área. Acho que precisa sim, cada vez mais a mulher ter espaço na animação, mas acho também que já existem muitas animadoras e realizadoras na área e não escutamos falar muito sobre elas. E eu sentia na fala das pessoas como se precisasse ter mais mulheres na área por não existir mulheres na área. E isso me incomodou um pouco e eu tive uma ideia de fazer um livro sobre realizadoras/animadoras/diretoras da animação brasileira, é uma vontade/ideia que eu tenho, mas nada concreto ainda.


Você gostaria de falar mais alguma coisa ao nosso público fã de animação?
Gostaria de dizer que a animação brasileira é rica e cheia de experimentações e se o mercado está crescendo em abundancia agora é graças a paixão de muitos pioneiros que fizeram guerrilha para que a área existisse no país. Fico triste quando vejo muitas pessoas da área enaltecendo apenas o mercado internacional e nem sequer se interessa pelo próprio. Sendo que nos últimos anos o mercado internacional se interessou muito pelo Brasil, vamos ser o país homenageado ano que vem em Annecy! O Brasil está iniciando um mercado mas não fica pra trás não! E se você está estudando e quer entrar para a área, desejo sorte e dedicação e digo que existe mercado nacional sim!

29 de junho de 2017

Anima Mundi 2017: Rio terá versão extendida!!!

É isso mesmo que você ouviu querido leitor! O Anima Mundi 2017 ganhará mais dias no Rio de Janeiro.

Comemorando 25 anos, a edição de 2017 do festival promete muitas atrações como a presença de Robert Feng, responsável pela abertura da série Game Of Thrones, Robert Valley que foi indicado ao Oscar pelo filme Pear, Cider and Cigarretes e o veterano uruguaio Walter Tourier.

Reorganize sua agenda Animada, o Anima Mundi no Rio de Janeiro agora vai do dia 14 ao dia 23 de Julho! E a programação ja está completa no site oficial do festival!

26 de junho de 2017

Stil, mais uma estrela brilhando no céu animado brasileiro

Faleceu neste domingo, 25 de junho Pedro Ernesto Stilpen, o Stil.

Stil é uma referência da animação brasileira. Seu trabalho e paixão pela animação inspiraram e inspiram a muitos dos que hoje trabalham e produzem animação no Brasil.

Foi lá em 1968, que ,junto com outros cineastas (entre eles Antônio Moreno), Stil ajudou a fundar o grupo Fotograma com o objetivo de divulgar o cinema de animação no Brasil. Este grupo organizou diversas mostras internacionais de filmes de animação na Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro. Podemos dizer que era o Anima Mundi décadas antes do Anima Mundi. Além do mais o grupo Fotograma também realizou um programa na extinta TV Continental sobre o mundo da animação.

Mas em 1969, o grupo, considerado subversivo, se extinguiu. Stil, que trabalhava como arquiteto numa empresa estatal foi demitido e aí decidiu largar a arquitetura pra se dedicar a aquilo que mais gostava: O Cinema de Animação. "Graças a ditadura eu deixei de ser arquiteto pra virar animador" disse ele em entrevista no documentário Luz, Anima, Ação.

E nesses mais de 40 anos, dedicado a arte da ilustração e do cinema foram inúmeros trabalhos: Curtas Metragens, roteiros de live-action e animação, livros, ilustrações, diversos personagens como a atrapalhada dupla detetives Antunes e Bandeira, Asdrubal, diversos dos "plim plims" da Rede Globo.


Rede Globo que aliás foi um dos lugares onde ele mais contribuiu com seu trabalho: Além dos Plim plims seu trabalho estava estampado em diversas atrações como: Faça humor não faça guerra, Satiricom, Armação Ilimitada, Domingão do Faustão e especiais de Lisa Minelli e Tom Jones.



Ainda como animador independente, sua contribuição foi valiosissima por sempre buscar técnicas baratas de produção utilizando papel de embrulho como suporte para o desenho de croquis animados com caneta hidrográfica, abrindo perspectivas para a utilização de outras técnicas: Assim foi nos filmes Status Quo (1968), Batuque (1969), Lampião ou pra cada grão uma curtição (1972), ABC (1978) e muitos outros filmes.


No ano de 2014, na terceira edição da Mostra Animação S.A. de Cariocas Animados, foi exibido o filme "Asdrubal em o que é que há com seu Peru" e Stil foi o homenageado da noite.



Mesmo após sua saída da Rede Globo a pouco mais de uma década, Stil nunca parou de projetar, de sonhar de trabalhar. E uma de suas últimas realizações foi roteirizar  o longa metragem "As aventuras do pequeno Colombo".



A partida de Stil entristece um pouco este ano do Centenário da animação brasileira. Afinal de contas muitos do que hoje estão produzindo nessa Pindorama animada tiveram valorosos ensinamentos deste grande e respeitado veterano da animação. Essas linhas aqui escritas representam muito pouco de sua grande contribuição. Mas nesta singela homenagem fazemos nossa reverência ao Mestre Stil!

Descanse em Paz querido amigo! Nós da família Animação S.A. somos eternamente gratos a você

25 de junho de 2017

Diário ANimado - Annecy 2017 - Dia VI (último dia)

Hoje vou falar sobre o meu último dia no Festival de Annecy 2017.

Não vi a sessão de encerramento, pois é para convidados, mas ela aconteceu no sábado mesmo, com sessões no domingo sobre os premiados. Então vamos lá!




Foram duas sessões de longas e uma de curta-metragem. 

Sessão de longas-metragens 1

In This Corner of the World

Direção : Sunao Katabuchi
País : Japão
Ano de produção: 2016
Duração : 02 h 09 mn
Técnica(s) utilizada(s) : 2D

A animação ao estilo tradicional japonês, inspirada no design mangá, então não há muito a dizer sobre o visual, sempre bem desenhado, fundo muito bem pintado e detalhado, com nada que pese negativamente na criação das imagens. Então vou à narrativa. A animação lembra o Cemitério dos Vaga-lumes (1988), de Isao Takahata. A história se passa em um momento difícil da história japonesa, um período que vai de antes a depois da 2a. Guerra Mundial. Suzie é uma jovem de Hiroshima, que deixa a família para se casar e viver com os pais do marido em outra cidade. O filme conta bem como era a região, as relações familiares, o respeito e a esperança dos japoneses em seu país. E o sofrimento, as perdas, a frustração com a derrota na guerra. Um filme pesado, apesar das cores sempre pastéis que aparecem na tela, mas bem feito. A história não é bonitinha.

Sessão de longas-metragens 2

Ethel and Ernest

Direção : Roger Mainwood
País : Reino Unido, Luxemburgo
Ano de produção: 2016
Duração : 01 h 34 mn
Técnica(s) utilizada(s) : 2D

Esta animação conta a história dos pais de Raymond Briggs (ilustrador britânico), Ethel e Ernest, duas pessoas comuns, da baixa classe trabalhadora de Londres, que se apaixonam, se casam, e passam por boa parte das mudanças sociais, culturas e políticas do século XX (mais ou menos, entre os anos de 1920 e 1960).

Como animação, é muito bem desenhada, como todos os detalhes arquitetônicos, de vestimenta, de objetos e decoração, que cobrem um período de tempo histórico considerável. Enquanto narrativa, foi bem elaborada, conseguindo mostrar as passagens de tempo e as mudanças de situação e pessoais de forma clara e sem ser maçante. Mas não há nada no filme, que não pudesse ter sido feito em live-action, mas é baseado na história em quadrinhos que Briggs, o filho, desenhou.

Sessão de Curtas 2

Zug nach Peace - Trem para a paz

Direção : Jakob Weyde, Jost Althoff
País : Alemanha
Ano de produção: 2016
Duração : 09 mn 52 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2DTécnica(s) utilizada(s) : Stop motion com objetos, Desenho sobre papel, 2D, 3D

A animação trabalha com imagem live-action. Conta a história de um iraquiano que vive em Berlim, e no metrô, vai refletindo sobre a situação de seu país, e a dele, um estrangeiro em outro lugar. Bom filme, com intervenções gráficas nas imagens reais, e imagens animadas com visual de xilogravura, preto e branco.

Tesla : Lumière mondiale - Tesla Luz Mundial

Direção : Matthew Rankin
País : Canadá
Ano de produção: 2016
Duração : 08 mn 18 s
Técnica(s) utilizada(s) : Stop motion com bonecos, Pixilation, outras, Live-action

Outra animação que usa imagem live-action. Com a história real de Nikola Tesla que em 1905 pede dinheiro ao seu ex-mecenas para financiar a mais extraordinária invenção: a criação de uma fonte de energia em escala mundial. Um bom filme, que soube utilizar as imagens de forma referencialmente inteligente - com efeitos do cinema de avant-garde do início do século XX, uma vez que a própria história real se passa no mesmo período.

Pépé le morse - Vovô Morsa

Direção : Lucrèce ANDREAE
País : França
Ano de produção: 2017
Duração : 14 mn 53 s
Técnica(s) utilizada(s) : 2D

Animação muito interessante, conta a história de uma família que por razões religiosas da avó, vai à praia "visitar o avô", que já está morto, como se fossem a um cemitério.
A relação da família, a mãe e os quatro filhos, é bem conturbada, e acham que a avó está meio "caduca", mas cedem à sua vontade. Coisas estranhas e engraçadas acontecem na praia, misturando drama e surrealidade. A animação em desenho é utilizada para dar forma a esses momentos, com personagens bem concebidos.

MeTube 2: August Sings Carmina Burana

Direção : Daniel Moshel
País : Áustria
Ano de produção: 2016
Duração : 05 mn 41 s
Técnica(s) utilizada(s) : Live-action

É um clip animado sobre a música de Carmina Burana, cantada por performances de rua. As animações acontecem nas interferências e adições sobre a imagem live-action. Visualmente interessante, parece uma grande apresentação circense, que desaparece em segundos.

Adam

Direção : Veselin Efremov
País : Dinamarca
Ano de produção: 2016
Duração : 05 mn 53 s
Technique
Técnica(s) utilizada(s) : Ordinateur 3D

Animação 3D de ambiente e história sem esperança, mostra um homem/robô se soltando de uma estrutura para adaptação biônica, em um laboratório. Em termos de 3D, é muito bem feito na recriação de um ambiente irreal mas que parece imagem filmada. Em termos de narrativa visual é deprimente, representando bem a condição do personagem.

The Full Story - A história completa

Direção : Daisy Jacobs, Chris Wilder
País : Reino Unido
Ano de produção: 2017
Duração : 07 mn 30 s
Técnica(s) utilizada(s) : Stop motion com objetos, Pixilation, outras

O curta conta a história de Toby que vende a casa onde passou a infância. Fatos e situações de sua vida são mostradas através da animação com objetos de forma bem criativa e envolvente. Também tem uma narrativa introspectiva e reflexiva, mas é um bom filme e uma boa animação.

Nothing Happens - Nada Acontece

Direção : Uri Kranot, Michelle Kranot
País : Dinamarca, França
Ano de produção: 2017
Duração : 11 mn 49 s
Técnica(s) utilizada(s) : Desenho sobre papel, Fotocópia

A animação fala da inércia, pois, literalmente, nada acontece. Através de desenhos, aparece uma cena de pessoas que se colocam em pé, em um a planície de neve, até formarem uma, massa, pois ficam todos juntos. Essa cena é entrecortada pela das árvores, onde pousam os corvos.
Com predominância de branco, preto, azul escuro e ocre, a câmera passa pelas pessoas, mostra seus rostos, todos com olhos esbugalhados, meio que esperando por alguma coisa.

Sprawa Moczarskiego - Caso Moczarski

Direção : Tomasz Siwinski
País : Polônia
Ano de produção: 2016
Duração : 05 mn 15 s
Técnica(s) utilizada(s) : Pintura sobre vidro

Animação forte. Baseado em uma história real, do jornalista polonês Kazimierz Moczarski. Membro da Resistência durante a ocupação nazista da Polônia durante a Segunda Guerra Mundial e autor do livro "Conversas com o carrasco". Depois, ele foi perseguido, preso e torturado pelo governo comunista de Stalin, e reabilitado durante o período anti stalinista. Com predominância de preto, a pintura sobre vidro caiu muito bem na representação dessa história, com fluidez e dramaticidade. Muito boa animação, em todos os sentidos.

Nocna ptica - Pássaro noturno

Direção : Spela Cadez
País : Eslovênia, Croácia
Ano de produção: 2016
Duração : 08 mn 50 s
Técnica(s) utilizada(s) : Éléments découpés

Animação soturna, fechada. Mostra um animal - que pessoalmente me pareceu mais um tipo de gambá - estendido na estrada, à noite. Ouve-se um diálogo entre um homem e uma mulher sobre ele, mas os dois não aparecem na tela. Depois surge o personagem correndo, entrando em um carro e dirigindo por um tempo longo. A narração é sobre os pensamentos do personagem. Feita com recorte o curta é muito bem animado. Enquanto história fica aquela sensação de que ficou faltando algo -apesar de achar que a intensão era essa mesmo.


Impressão geral sobre o Festival:


É difícil resumir... mas vou tentar!

Destaco que escrevi o diário deste dia despois que soube da lista de premiados - foi divulgada no sábado mesmo - mas isso não interferiu no meu ponto de vista.


Alors,... como dizem os franceses... é um festival muito grande como já escrevi no primeiro dia. São 10mil pessoas (dados do festival) a mais na cidade, que tem uns 50mil habitantes. Então, é fácil entender que é difícil organizar e fazer com que tudo corra bem em todos os pontos de exibição e locais diversos ligados ao festival.


Mas também acontecem situação em que as características culturais se fazem presente. Mesmo ocorrendo alguns problemas causados por questões alheias ao participante, eles são pragmáticos. Assim, o problema acaba "sendo do" participante, pois ele vai ter que resolver sozinho.

Agora, um elogio: uma coisa muito legal é a quantidade de longas-metragens em exibição: nove em competição de 11 fora de competição! Infelizmente só tive como assistir a um deles...snif...

No geral, eu assisti a três sessões que achei muito boas - a Perspectivas 1 e as Sessões de Curtas-metragens em Competição 2 e 3. Mas não vi nenhum filme que eu pudesse dizer, "nossa, que animação!". O nível técnico de todas é muito equilibrado.

Em termos narrativos é evidente o momento de desesperança e de crítica ao modelo de vida e sociedade atuais. Assim como ficou claro a postura política do festival, na afirmação da liberdade de expressão, política, sexual, étnica, cultural, etc.

Comentando sobre os premiados do Festival, onde só posso falar do que eu vi - longas e curtas-metragens.

Obviamente eu tenho uma visão diferente da lista de premiados oficial. Acho que "Lu Over the Wall", para primeiro e mais importante prêmio de longa-metragem (Cristal), é fraco - comentei sobre ele no segundo dia. Tudo bem que ele usa a animação de formas mais solta, apesar de ser oriental, e com design de manchas para representar as lembranças. Mas isso, para mim, é pouco para levar o prêmio. Acho que ele tem que ser "bom" no conjunto. Enquanto história, “Loving Vincent”, “In this Corner of the World”, “Big Fish & Begonia”, ou mesmo “Teheran Taboo” são muito mais fortes. Os dois primeiros foram premiados respectivamente, com prêmio do público (realmente, eu ouvi muitos comentários sobre o filme, em filas e nas ruas da cidade) e do juri.

Quanto à premiação dos Curtas, eu também não acho que “Mon Börda” (The Burden) fosse "o melhor" para o primeiro prêmio, apesar de ser uma boa animação. Acho que “Caso Moczarski” (que vi no sábado), “Empty Space”, “After All”, “Kötö Kiz” (ganhou prêmio do juri), “Splendida Moaert Accident” (ganhou o prêmio de primeira obra) e mesmo “Manivald”, ficariam melhor como premiado principal.

Mas como se diz, "cabeça de jurado é caixa de Pandora..." E são muitos os motivos que levam uma produção a ser premiada, e isso ocorre em qualquer festival – o que nem sempre é evidente para quem somente assiste aos filmes.

Bem, eu me despeço esperando ter conseguido passar para vocês um pouco do que eu vi e vivi em Annecy, e ter 'animado" o amor de vocês por essa Arte.


Abraço a todos e muito obrigada pelo interesse! ;)